1 – A eleição autárquica já lá vai, já todos tomaram posse, uns com sorrisos de orelha a orelha, outros com aquele esquisito amargo de boca e, se é certo que o mundo pula e avança, na passada semana tivemos em cima da mesa o Orçamento de Estado, onde, entre outras coisas, ficámos a saber que o subsídio de refeição vai aumentar 10 cêntimos!!! Aleluia, aleluia e, não haverá aumento significativo das pensões, pese embora haja folga orçamental para tal. O Quinzinho prefere dar, num determinado mês de 2026, um rebuçadito peitoral, tipo Dr. Bayard, e dentro do cálculo político distribuir uma vez por festa um Ferrero Rocher para, no mês seguinte, nos mandar novamente comer a sopinha dos pobres. Grande Orçamento este. De se tirar o chapéu.
2 – Teófilo Carvalho dos Santos, do alto da cadeira maior da Assembleia da República, em novembro de 1978, dizia «vai proceder-se à votação final global do projecto-lei nº 157/I/3, sobre as bases gerais do Serviço Nacional de Saúde». Resultado: «Submetida à votação, foi aprovada com os votos favoráveis do PS, PC, UDP e do deputado independente Brás Pinto e os votos contra do PSD, CDS e dos deputados independentes social-democratas». 47 anos volvidos aí está a direita no seu melhor. Com Ana Paula ou outra ou outro qualquer (não vale a pena pedir a demissão. Para quê?), se o projecto deste Governo alaranjado é a degradação calculada do SNS, que, infelizmente, está em curso, onde as PPP são cada vez mais, a saúde é controlada em mais de 50% pelos privados e o SNS a caminhar, única e exclusivamente, para apoiar a população que vive no limiar da pobreza. Este é o triste cenário que tem, em Ana Paula, a sua melhor executadora.
3 – Em meados dos anos 70, Portugal tinha 2.000.000 de pobres e manteve este rácio até ao final do século. Vem um novo e nos anos 10, 20 e 25 o número é praticamente o mesmo. Várias gerações passaram, com governos de direita e esquerda, e os 2.000.000 mantém-se. Eis aqui o busílis de toda a questão. E as perguntas são inevitáveis: Onde falhámos? Como falhámos? Porque falhámos?… Vale a pena pensar nisto.
4 – Ouvi falar de Salazar. No Parlamento. E ouvi que eram precisos, pelo menos, três para controlar a corrupção. Não fosse o caso ser sério, daria vontade de rir à gargalhada. Passada a estupefação veio-me de imediato à memória a quadra do Zeca – “Oh meu Portugal tão lindo/Oh meu Portugal tão belo/metade é de Jorge de Brito/a outra metade de Jorge de Melo” – e recordei o processo pedófilo do “Ballet Rose”, o caso da herança Sommer, a CUF e o monopólio dos adubos, o Barbieri Cardoso, o controlo das empresas, da comunicação, a pide, os bufos, a mocidade portuguesa (bufa), a mulher subjugada, os favorezitos da Legião, os padrinhos, as cunhas para entrar na função pública, a censura, as prisões, a guerra colonial, etc. etc. etc.
Este filme parlamentar, ao estilo de Leni Riefenstahl, é aplaudido de pé por 59 “bobbleheads”. Nem Jane Austen, no seu orgulho e preconceito, conseguiria verificar o comportamento intrigante dessas personagens guiadas por uma eminência parda, só comparável à cavalgadura de Calígula quando esta foi nomeada cônsul.
Este escarro que a democracia deixou parir desgasta os média, carregando em si próprio toda a desonestidade intelectual numa mentira permanente com recurso às “verdades” palissientas e num esquecimento deliberado da lei, da ética e da moral, onde o delito oculta evidências afim de o tornar credível e aceitável.
Alguns politólogos e estudiosos afirmam que tudo isto tem os dias contados. Cas Mudde afiança mesmo que «é uma ideologia de baixa densidade e trata um conjunto limitado de questões», o que é efetivamente verdade. O facto é que a política de taberna servida num copo imundo de três, apregoado por gritaria histérica q.b., faz com que a direita, dita democrática, receosa de perder eleitorado, embarque tantas vezes nesse delírio chico-esperto onde se encontram homofóbicos, islamofóbicos, anti-imigrantes, racistas, fascistas, machistas, misóginos e afins tentando agarrar alguns espíritos livres e uns tantos incautos. Garcia Pereira pede às instâncias judiciais a ilegalização deste escarro. Permitam-me discordar. Como cidadão, quero saber o que dizem, onde andam, o que pretendem, o que fazem e como o fazem, obrigando-os, à luz do regime democrático, a darem a cara quando apresentarem as suas néscias e estapafúrdias ordinarices.
5 – Sinceramente nunca gostei de Amaros na política. E se alguns deles são “démodés”, que dizer do Leitão, que cada vez que abre a boca ou entra mosca ou sai asneira. É assim nos “briefings” do final do Conselho de Ministros, foi assim com os maquinistas e é agora na Lei da Nacionalidade. Decoro precisa-se…


