1. Comecemos pelo óbvio. Da mesma forma que o futebol seria um jogo bem mais fácil se não existisse o fora de jogo, convém lembrar que o modo de eleição nas autárquicas é diferente das legislativas. Enquanto que para eleger deputados há proporcionalidade, em modo plurinominal, um presidente de Câmara é eleito por maioria simples, em modo uninominal. Ou seja, the winner takes it all. Deste modo, a nomeação de um presidente de Câmara não depende de ter a maioria dos mandatos, mas dos votos. Nem depende da confiança política do executivo camarário. Se não tem maioria, isso obriga-o a uma concertação permanente, muitas vezes assimétrica. Mas se a alcançou, tem a vida muito facilitada, pois pode direccionar as energias para a governação. Percebe-se pois que a maioria absoluta tenha sido a grande meta definida por Sérgio Costa. E como a alcançou? Graças a uma interpretação exímia da proximidade com o eleitorado. Na insistência no contacto personalizado. Na retórica motivacional.
2. Claro que o poder local tem uma dimensão pragmática, às vezes surpreendente, que escapa aos grandes temas da política nacional. Não por acaso, as listas concorrentes tentam dar resposta ao que o eleitor comum espera dos autarcas: eficiência, bom atendimento, serviços de qualidade, melhoria das infraestruturas e equipamentos sociais, simplificação dos procedimentos, intervenção urbanística criteriosa, segurança, transparência. Com inúmeras variáveis locais.
3. Numa autarquia da dimensão da Guarda, as escolhas dos eleitores são quase sempre determinadas pelo reconhecimento do que foi feito, ou pelo castigo sazonal a quem nada mais espera. Uma disputa eleitoral aqui não é muito diferente de muitas outras pelo país fora. Até os slogans são idênticos. Valoriza-se a identificação colectiva com o espaço (“todos por…”), ou o simples apelo a um propósito genérico, mas circunscrito ao território (“pela Guarda”, “por Marco de Canaveses”, “por Penamacor”, etc.), ou a alternativa desafiadora (“Guarda com Ambição”), ou a dimensão afectiva, para apaziguar a memória (“Guarda no coração”).
4. No seu core, as campanhas das listas em presença equivaleram-se no despojamento ideológico. O que, em si mesmo, é uma mensagem politicamente relevante. Predominando a tónica nas tradições locais, nos saberes locais, no comércio local, na mobilidade, no emprego, no investimento, no património, etc.
5. Sérgio Costa foi assim o único que soube ser competente nesse jogo de sedução. E nunca teve adversários à altura. E ninguém teve talento nem carisma para ser a sua nemésis. O mérito da sua gestão é outra conversa e muito haveria a dizer sobre isso. Para o que agora interessa, Costa soube criar uma eficaz rede de apoio e mobilização. Implantou-se no terreno de tal forma que seria muito difícil desalojá-lo. Por sua vez, João Prata chegou tarde demais. Teve a cidade consigo, mas não chegou. Precisava de mais tempo e trabalho de campo. Importante, mais do que as explicações e as análises, é acompanhar e escrutinar o modo como irá Sérgio Costa dar resposta aos inúmeros desafios que pendem sobre a Guarda, durante os próximos quatro anos. Gerindo recursos, por natureza, limitados.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


