Editorial de Luís Batista-Martins: Estado da Palestina

Escrito por ointerior

O reconhecimento do Estado da Palestina por parte de Portugal foi uma decisão acertada por parte do Governo. É um alinhamento com os demais parceiros europeus e é uma tomada de posição internacional pela paz. É um ato simbólico relevante, humanista e solidário com o povo palestiniano. Mas é apenas isso.

É a pressão diplomática a tentar pôr fim a um conflito que massacra um povo. Um conflito que, não devemos esquecer, nasce na retaliação ao ataque vil e cobarde de 7 de outubro de 2023, e que muitos nunca condenaram, quando o Hamas chacinou e matou pessoas indefesas. Entretanto, e enquanto o Hamas continua a controlar a Faixa de Gaza e a manter os reféns israelitas, Israel prepara-se para destruir completamente Gaza.

De resto, há dois meses, Portugal titubeava sobre a posição a tomar e definiu a necessidade de haver seis condições para reconhecer o Estado da Palestina. Nenhuma delas foi cumprida: o Hamas não está desarmado; os reféns não foram libertados; não há condições para realizar eleições em Gaza num futuro próximo; o Hamas não aceita um Estado palestiniano desmilitarizado; não há garantia de que a segurança de um futuro Estado palestiniano possa vir a ser assegurada por forças internacionais; não há garantia de que é possível controlar e pacificar a Faixa de Gaza; o Hamas não reconhece o direito à existência do Estado de Israel. Ou seja, a posição portuguesa evoluiu no sentido do reconhecimento, ainda que nada tenha mudado, em prol da defesa do fim da guerra. Reconhecer o Estado da Palestina, neste momento, é verbalizar e tornar oficial um sentido de apoio à paz, à vida e ao fim da guerra em Gaza.

Como escrevi há algumas semanas (ointerior.pt/opiniao/editorial-de-luis-baptista-martins-reconhecer-o-estado-da-palestina/), «Gaza, hoje, não é apenas e só mais um território cercado e totalmente destruído. É cada vez mais o lugar onde a defesa da Humanidade parece ter sido enterrada de vez sob os escombros juntamente com os milhares de vidas perdidas». Mas a Humanidade tem de olhar sobre os escombros de Gaza.

O reconhecimento internacional do Estado da Palestina vai isolar ainda mais Israel, vai aumentar a pressão diplomática, mas enquanto não houver uma aproximação a Israel e o envolvimento americano não haverá paz. O fim da guerra não depende apenas da vontade pacificadora do mundo ocidental, das manifestações pela causa palestiniana ou das “flotilhas” contra o embargo israelita para levar ajuda humanitária a Gaza, o fim da guerra precisa que os dois lados da contenda queiram a paz, que Israel aceite parar, mas que também o Hamas pare. Não basta tomar posição pela paz ou apoiar a causa palestiniana, mas acreditando que a solução “dois estados” possa vingar, o reconhecimento do Estado da Palestina é um passo importante. Mas não pode ser um prémio ao terrorismo e ao Hamas pelo ataque atroz e cruel de 7 de outubro…

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