ESPAÇO PÚBLICO DO LEITOR: O que ainda se aprende numa aldeia

Escrito por ointerior

Sou filho da cidade. Cresci em Lisboa, no meio da pressa, do barulho e da constante necessidade de chegar sempre antes dos outros. Mas foi no interior, na Beira, que aprendi a respirar. E talvez, mais do que isso, aprendi o que significa verdadeiramente fazer parte de um lugar.
Refiro-me ao Soito, no concelho do Sabugal. Vila hoje, aldeia outrora. É lá que se funde a minha família materna, João Viegas Nabais e Lucília Palinhos Pereira, deram origem à família Nabais, gente de trabalho, de palavra e de uma ligação à terra que não se ensina em lado nenhum. A nossa família, longe de ser a única, teve um papel importante no desenvolvimento da terra. Foi, durante décadas, um dos dínamos locais com uma marca importante na política, na educação, na iniciativa, na ligação à comunidade. Isso orgulha-me, não por vaidade, mas porque vejo aí um exemplo do que é possível fazer quando se vive com sentido de pertença.
Não o digo para elevar ninguém, digo-o porque acredito que as terras também se constroem com histórias assim: com gente que fica, que investe, que acredita. E isso vale tanto hoje como valia há 50 anos.
Muito se fala, e com razão, do abandono do mundo rural. Mas talvez mais grave do que a ausência de pessoas seja o risco de perdermos o que essas pessoas representam. O interior não é apenas geografia é cultura, é memória, é caráter. E isso não se substitui com incentivos fiscais nem com discursos comovidos uma vez por ano.
Numa terra como o Soito aprende-se o essencial. Aprende-se que a vida não se mede em “likes”, mas em laços. Que vale mais uma palavra de honra do que um contrato com selo. Que o tempo não é inimigo, mas aliado e que ouvir é, muitas vezes, mais importante do que responder.
Há quem veja no interior um atraso. Eu vejo uma reserva de bom senso. Um lugar onde ainda se chama pelo nome, se ajuda sem alarde, se respeita o que veio antes. Não há pressa para se ser importante. E talvez por isso se viva com menos pressa, talvez por isso as pessoas se sintam.
Não escrevo isto para idealizar o campo nem para atacar a cidade. São realidades diferentes, e ambas necessárias. Mas importa dizer que, num tempo em que tudo parece descartável, há lições que resistem em silêncio nas aldeias e vilas do nosso país. E o que se aprende ali, como o que aprendi no Soito, não cabe em manuais nem em programas eleitorais.
Talvez o maior erro seja pensar que o interior é o fim da linha. Quando, na verdade, pode muito bem ser o princípio, de tudo aquilo que mais falta nos grandes centros: comunidade, proximidade, respeito, sentido de pertença.
Enquanto houver uma aldeia uma vila onde ainda se aprenda isso, Portugal não estará perdido.

*Nuno Nabais, Lisboa, mas com raízes familiares no Soito (Sabugal)

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