A Guarda vai continuar dividida

«Sérgio Costa terá de ter boas propostas, melhor lista e muitos apoios para voltar a convencer os guardenses»

Depois de semanas de dúvidas e hesitações o PSD confirmou que o candidato do partido à Câmara da Guarda é João Prata. A 18 de junho escrevi aqui (https://www.ointerior.pt/opiniao/quem-sera-o-candidato-do-psd-a-camara-da-guarda/) que, perante a confirmação da condenação de Álvaro Amaro, João Prata será «o senhor que se segue» O presidente da Junta da Guarda, que há 24 anos exerce essa função (12 anos na freguesia de S. Miguel e 12 anos na cidade) já era insistentemente referido, depois de gorada a possibilidade de Sérgio Costa regressar ao PSD e após a exclusão de Álvaro Amaro e de Chaves Monteiro (que anunciou aos microfones da Rádio Altitude que não estava disponível para ser o cabeça de lista do PSD).
Assim, e depois de anunciada a candidatura de António Monteirinho, pelo PS, José Pedro Branquinho, pela CDU, Luís Soares pelo Chega e Sérgio Costa pelo movimento independente Pela Guarda (PG) estão finalmente conhecidos os nomes dos principais candidatos às próximas eleições autárquicas na capital de distrito.
Foi um caminho lento por parte do PSD, que até há poucos dias ainda esperava por Sérgio Costa – depois de muitas aproximações e recuos, o autarca não terá cedido às exigências social-democratas, que pretendiam o segundo lugar na lista à Câmara e o primeiro à assembleia (Sérgio Costa deverá levar António Fernandes como número dois e continua a querer José Relva na AM), além de terem a sigla na candidatura. Mas esta intransigência de Sérgio Costa pode ser-lhe fatal: o presidente independente tinha tudo para renovar o mandato com grande vantagem sobre os adversários – está no poder, tem popularidade, o apoio dos presidentes de junta e grande empatia com a população rural. Com o regresso ao PSD agregava e ganharia com maioria. Agora, volta a ser candidato independente, com a mesma ousadia que teve em 2021, mas, para além do desgaste, terá de enfrentar uma novidade imprevisível: o Chega teve no concelho da Guarda nas últimas legislativas 5.200 votos… eleitorado que deverá manter o apoio a André Ventura e, por muito mau resultado que Luís Soares possa ter, o Chega deve mesmo eleger um vereador roubando votos ao PG.
Assim, em poucos dias tudo mudou: de uma caminhada razoavelmente fácil (se fosse candidato independente com o apoio do PSD) até à disputa intensa com João Prata. Sérgio Costa terá de ter boas propostas, melhor lista e muitos apoios para voltar a convencer os guardenses. E os candidatos à junta de freguesia da cidade serão determinantes para o resultado final: o PS aposta na dinâmica de Acácio Pereira e o PG deverá ter o antigo socialista António Saraiva. Mas o PSD poderá surpreender: poderá convidar Carlos Chaves Monteiro para liderar a lista à junta da cidade. E o Chega também pode ter candidato forte e contribuir para maior divisão…
Em 2021 havia 37.390 eleitores inscritos no concelho (para a câmara, o PG teve 8.559 votos, o PSD teve 7.958 e o PS 4.249), dos quais, podiam votar na freguesia urbana da Guarda 23.042; em 2025 há 36.504 eleitores no concelho, dos quais 22.850 na cidade da Guarda. Está tudo em aberto e, ainda que falte muito tempo, o executivo municipal deverá continuar dividido e sem maioria – talvez com Luís Soares a ser o pêndulo para decidir o que será aprovado… e a Guarda vai continuar altamente dividida – muito mais do que uma divisão político-partidária, a cidade vai continuar socialmente dividida, em conflito cívico, cultural e moral.

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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