Os partidos políticos, como as empresas, tendem a especializar-se. Numas eleições na Áustria apareceu o Partido da Cerveja (Bierpartei), com propostas como a instalação no centro histórico de Viena de uma fonte de cerveja. Em Portugal apareceu o partido dos reformados. O Bloco de Esquerda, apesar das suas pretensões generalistas, depois de se dedicar durante anos a fio às causas que chamou de fraturantes e, no fundo, tinham a ver com os hábitos sexuais dos portugueses, especializou-se nas últimas eleições em trabalho por turnos. A coisa não correu bem. Mesmo havendo mais de um milhão de portugueses a trabalhar por turnos, estes não se mostraram comovidos com a solidariedade do Bloco e optaram por outros partidos.
O Chega teve mais sorte. A sua causa mais visível era o combate à imigração e pegou. Passou de 50 para 60 deputados, o que teve como consequência a sua estabilização como grande partido e a demonstração de que os resultados de há um ano não foram uma fuga à normalidade das coisas. Havia outras causas, como a do costume do combate à corrupção que servia apenas para sugerir que o Chega não é corrupto, abomina a corrupção e é, no fundo, o partido dos portugueses de bem. Nesta última parte o argumento não funcionou e alguém disse, com alguma pertinência, que a percentagem de criminosos no grupo parlamentar do Chega era superior à média nacional. Já a parte da imigração tem sido e foi um sucesso a todos os níveis.
A AD, a pouco e pouco, vai aderindo aos argumentos do Chega e procura não só limitar a imigração como anular o efeito de políticas mais permissivas de governos anteriores. Há um ano terminou com as “manifestações de interesse” que permitiam a estrangeiros manterem-se em Portugal a viver e a trabalhar enquanto o seu processo não fosse resolvido. Era uma forma de lhes atribuir um módico de direitos enquanto a administração não resolvesse os seus processos. Depois do cancelamento desta possibilidade, restava aos estrangeiros interessados em trabalhar em, Portugal, ou na União Europeia via Portugal (aliás, o caso mais comum), pedir vistos de trabalho nos consulados portugueses nos seus países de origem. Estes, como muitos descobriram à sua custa, não têm capacidade de resposta e são necessários meses para se obter uma entrevista. Os telefones não são atendidos e os mails não têm resposta.
Pouco a pouco esse nicho de mercado, de combate à imigração, tornou-se dominante e conseguiu virar o essencial da atenção pública e da discussão política para esse problema. Primeiro, claro, foi necessário convertê-lo em problema. Ou porque havia “perceções” nesse sentido, ou por amplificação de um ou outro sinal, conseguiu transmitir-se a ideia de que a imigração estava associada à criminalidade. De pouco valeu demonstrar-se que taxa de criminalidade entre imigrantes era inferior à da população em geral. As redes sociais achavam o contrário e, quando as redes sociais dizem uma coisa, essa coisa passa a ser verdade.
Quer agora o governo restringir a imigração a profissionais qualificados e restringir o direito ao reagrupamento familiar, para além de considerar a hipótese da perda da nacionalidade para estrangeiros naturalizados que cometam crimes graves. Estas medidas, desculpem-me, vão do simplesmente idiota (altamente qualificados foram os milhares de jovens portugueses obrigados a emigrar pela incompetência dos nossos políticos) ao claramente mesquinho e reles (proibir o reagrupamento familiar deve ser das medidas eticamente mais reprováveis dos últimos anos), passando pela evidente violação da Constituição, que não admite a perda da nacionalidade (adquirida ou de nascença) a ninguém. Entretanto, as empresas de construção civil, os lares de terceira idade, os restaurantes, as fábricas, os empresários agrícolas, todos procuram trabalhadores e todos estão disponíveis para acolher imigrantes, mesmo não qualificados, por manifesta falta de portugueses de bem dispostos a trabalhar.


