10 de Junho

Escrito por Pedro Fonseca

Uma celebração é um momento para recordar e enaltecer o melhor de uma pessoa ou coletividade. Um discurso celebrativo que se desvie desse propósito está destinado a gerar polémica. Foi precisamente isso que aconteceu em Lagos. Embora com algumas menções honrosas à mistura, sobretudo a Luís de Camões, os Portugueses foram brindados com uma lição sobre tudo o que de pior Portugal trouxe ao mundo. Para piorar o cenário – já de si grave – a autora decidiu prescindir de contextualizações históricas e ignorar os valores e costumes prevalecentes nas sociedades de então.
Faltou-lhe também bom senso e realismo. Uma vida humana é longa. Quantas pessoas nunca praticaram uma ação de que se arrependeram? Mais longa ainda é a vida das nações. De entre elas, quantas se podem orgulhar de nunca terem participado numa atrocidade humana? Quantas nunca praticaram a escravatura ou algum tipo de trabalho forçado? Quantas não exerceram algum tipo de exploração ou domínio sobre outro povo? Quantas não iniciaram ou provocaram conflitos armados com outras nações? Quantas sociedades não punem judicialmente certas práticas que, ainda há algumas décadas, eram quase consensualmente aceites?
O caminho para um mundo melhor não se constrói através de injeções morais de remorsos coletivos. Muito menos se essas considerações punitivas remetem para um passado distante que já não pode ser emendado. Constrói-se pelo enaltecimento de figuras e feitos que evidenciam o que de melhor somos capazes, no plano individual e coletivo.
Ao longo de quase nove séculos de história, o que não falta aos Portugueses são figuras e feitos que nos enchem de orgulho e nos inspiram. Apenas dois dias antes do 10 de Junho, a nossa seleção nacional masculina de futebol colocou o nome de Portugal no trono do futebol europeu. Um feito extraordinário para um país com muito menos população do que os adversários que defrontou na fase final da competição.
Do ventre de Portugal brotaram vultos como Amália Rodrigues, Antero de Quental, Aristides de Sousa Mendes, Cristiano Ronaldo, Eduardo Lourenço, Egas Moniz, Fernando Pessoa, D. João II, Luís de Camões, Pedro Nunes e Vasco da Gama. A lista é quase infindável. No plano coletivo, os Portugueses podem e devem orgulhar-se dos Descobrimentos, das suas produções culturais, conquistas desportivas e contribuições para o avanço do conhecimento científico e da inovação tecnológica. Esse orgulho deve ser igualmente alargado ao espírito solidário que, ao longo da sua história, o País revelou vezes sem conta em situações de crise, dentro e fora de portas, auxiliando os mais necessitados sem olhar a estatutos, crenças ou cores de pele.
É por tudo isto que, no dia 10 de Junho, celebramos o Luís de Camões que compôs “Os Lusíadas” e não o Luís de Camões que se perdeu por entre garrafas de vinho, rixas de rua e outros pecados da vida mundana.

* pedrorgfonseca@gmail.com

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Pedro Fonseca

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