Se há uns tempos escrevi sobre a necessidade de as autarquias e entidades públicas criarem condições para a cultura florescer, hoje preciso de falar sobre outro problema: a ausência do público. Porque de nada serve termos espetáculos, concertos, festivais e teatro se, no momento da verdade, as cadeiras continuam vazias. E a pergunta impõe-se: o que falta?
Reparemos no Festival Y #21. Há eventos, há concertos, há oferta. Mas quando olhamos, por exemplo, para os passatempos de bilhetes, não há participantes. Quando falamos com quem foi, a resposta repete-se: pouca adesão, pouca gente, pouco entusiasmo. E não é que faltem pessoas – é que faltam hábitos.
A atriz Neusa Fangueiro explicou isto de forma simples numa entrevista ao Gerador:
“Se não há regularidade, não se cria hábito. E se não há hábito, as pessoas deixam de procurar. Se ninguém procura, quem programa vê as salas vazias e corta esse tipo de espetáculos. E assim se fecha um ciclo vicioso.”
E aqui está a raiz do problema. Se não há público, há menos espetáculos. Se há menos espetáculos, há menos público. E se há menos público, os programadores cortam ainda mais. E assim se transforma a cultura num luxo ocasional, quando deveria ser uma rotina.
Mas não é só falta de hábito. É também uma questão de referências. Joaquim, reformado, explicou num estudo etnográfico sobre públicos de teatro porque é que as pessoas iam mais ao teatro antigamente:
“Íamos porque conhecíamos os atores. Hoje, quem é que sabe o nome dos atores de teatro? Eles fogem para a televisão, para as novelas. O teatro não entra em casa das pessoas; as novelas, sim.”
Esta é uma realidade inegável. A cultura exige presença. As novelas entram-nos pela sala dentro, mas para ver teatro, temos de sair. Para ir a um concerto, temos de nos deslocar. Para ver uma exposição, temos de fazer um esforço. E talvez este seja o ponto-chave: temos perdido o hábito de nos mexer pela cultura.
Os números também não ajudam. Um estudo revelado pela RTP revelou que a maioria das pessoas foi ao teatro uma ou duas vezes num ano inteiro, e quem mais vai pertence à faixa etária entre os 55 e os 64 anos. Os mais novos, onde andam?
O Estado tem um papel a desempenhar, claro. Como bem defendeu Pedro Alves, é essencial que existam políticas públicas que criem raízes para que os projetos locais floresçam. Mas não podemos culpar apenas o Estado. Se não há público, como se pode justificar o investimento? Como convencer uma autarquia ou uma empresa privada a apoiar eventos se, na hora do espetáculo, ninguém aparece?
E talvez esta seja a pergunta essencial: se não somos público, podemos exigir cultura?
A atriz Maria João Luís lembrava como, há anos, o teatro era discutido à saída dos espetáculos. Hoje, os espetáculos acabam e ninguém fala sobre eles. Já nem discutimos aquilo que vemos. E o que não se discute, não se valoriza.
Se queremos uma cidade viva culturalmente, não basta reclamar mais espetáculos. É preciso ir. É preciso estar. É preciso ser público. Porque cultura não é uma coisa que acontece sozinha.
E se continuarmos a esperar que alguém resolva isto por nós, podemos um dia perceber que já não há mais nada para ver. Porque a cultura morre onde não há quem a queira.
“Nunca tinha entrado no Tivoli, nunca tinha ido ao cinema. O Tivoli era para mim um antro de magia.” Adília Lopes, Choupos
Docs de apoio:
Diário de Notícias. (2017, 31 de janeiro). Porque é que as pessoas vão ao teatro e, no fim, não ficam a discutir connosco? Diário de Notícias. Recuperado de https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/porque-e-que-as-pessoas-vao-ao-teatro-e-no-fim-nao-ficam-a-discutir-connosco-5637716.html
RTP. (2024, 27 de março). Frequência abaixo do desejado: setor do teatro quer fixar público regular nas plateias. RTP Notícias. Recuperado de https://www.rtp.pt/noticias/cultura/frequencia-abaixo-do-desejado-setor-do-teatro-quer-fixar-publico-regular-nas-plateias_a1560385
Gerador. (2020, 7 de março). Fértil Cultural: “Não vamos parar de fazer teatro, até porque não sabemos fazer mais nada”. Gerador. Recuperado de https://gerador.eu/fertil-cultural-nao-vamos-parar-de-fazer-teatro-ate-porque-nao-sabemos-fazer-mais-nada/
Lopes, J. T., & Dias, S. J. (2018). O público vai ao teatro: uma etnografia dos públicos em ação. Sociologia, Problemas e Práticas, 87, 51-72. Recuperado de https://journals.openedition.org/spp/1443
Lopes, Adília. (2023). Choupos. Assírio & Alvim.
Sugestão cultural deste mês:
Livro: Adília Lopes – Choupos
Documentário: António-Pedro Vasconcelos – Conspiração
maio, 2025 Romeu Curto


