António José Seguro vs. António Vitorino

Escrito por Acácio Pereira

O debate sobre quem deve ser o candidato a apoiar pelo Partido Socialista à Presidência da República está em cima da mesa. Entre os possíveis candidatos, dois perfis contrastam fortemente: António José Seguro, mais próximo da militância e da base partidária, e António Vitorino, figura altamente qualificada e associada à visão mais tecnocrática da política.

A escolha entre os dois não é apenas uma questão de currículo, mas um dilema clássico da filosofia política: quem deve ascender ao poder? O líder que caminha entre os cidadãos ou o especialista que vê o mundo de cima? Para responder a esta questão, podemos recorrer a duas grandes tradições filosóficas: o pragmatismo democrático de John Dewey e a crítica de Platão à tecnocracia.

John Dewey, um dos principais filósofos do século XX, defendia que a política não deve ser um campo restrito a especialistas, mas um espaço onde o conhecimento é construído coletivamente. A sua visão do pragmatismo democrático refere a importância da experiência real na política e da participação ativa dos cidadãos na tomada de decisões.

Neste sentido, António José Seguro encaixa melhor no modelo de Dewey: foi um líder ligado à militância, percorreu o país e procurou democratizar o PS, inaugurando práticas participativas no partido. A sua abordagem não se baseia apenas na teoria, mas na prática política do dia a dia, na experiência acumulada em anos de contacto com as bases. Já António Vitorino, com a sua experiência governativa e europeia, aproxima-se mais de um modelo de governação baseado na “expertise”, onde a tomada de decisão se apoia no conhecimento técnico e jurídico. No entanto, para Dewey, a política não pode ser dominada apenas por especialistas, pois isso afasta os cidadãos do processo democrático.

Esta questão já tinha sido levantada há mais de 2.500 anos por Platão, na sua obra “República”. O filósofo defendia que os reis-filósofos, altamente treinados e intelectualizados, deveriam governar as cidades pois possuíam a sabedoria necessária para tomar as melhores decisões. No entanto, essa visão de Platão tem sido criticada ao longo da história por conduzir a uma governação elitista, onde as decisões são tomadas por um pequeno grupo de iluminados afastados da realidade popular.

A candidatura de António Vitorino pode ser vista sob essa luz. É inegável a sua competência e experiência, mas o seu percurso passou por funções técnicas e institucionais, longe da militância ativa do partido. Seguro, ao contrário, aproxima-se mais de uma visão aristotélica, onde a política não é apenas uma questão de teoria, mas de prática e de experiência direta.

Um líder não pode conhecer apenas as regras do jogo – tem de jogar ao lado dos seus.

* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda

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Acácio Pereira

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