O mundo estremeceu com o bombardeamento dos Estados Unidos a três instalações nucleares iranianas. O aumento do preço do petróleo passou a ser a única certeza após o ataque. E, muito para além da guerra entre Israel e o Irão, com a entrada dos americanos no conflito houve uma subida de nível, numa escalada perigosa, em que a possibilidade de encerramento do estreito de Ormuz passou a ser uma peça essencial num puzzle de difíceis equilíbrios – por ali passa mais de 20% do petróleo consumido em todo o mundo.
Mas, depois do bombardeamento às instalações nucleares iranianas, e quando parecia que a escalada da guerra iria subir de nível, o presidente americano Donald Trump anunciou a paz, ou pelo menos uma oportunidade para um acordo de cessar-fogo.
Ainda que não soe bem, e menos ainda num tempo em que a sociedade vive intensamente o humanitarismo e não quer ver na televisão as imagens das guerras, como recordou João Miguel Tavares, no “Público”, há uma grande verdade, ainda que desagradável e frequentemente ignorada, como escreveu Edward Luttwak (“Give war a chance” – “Dê uma chance à guerra”), pese embora a guerra «seja um grande mal, ela tem uma grande virtude: pode resolver conflitos políticos e levar à paz» – mais do que um trocadilho aproveitando a canção pacifista “Give peace a chance”, de John Lennon, na verdade, a história comprova que muitas vezes só é possível conquistar a paz com guerra…
O atual regime iraniano nasceu com a Revolução Islâmica de 1979. Os Ayatollahs mudaram profundamente a estrutura de poder no país. Os líderes religiosos, chamados Líderes Supremos, concentram toda a autoridade. Território de um antigo império, rico em tradição e cultura, o Irão, que foi durante séculos conhecido como Pérsia, é uma república islâmica xiita, uma ditadura, com imenso poderio bélico, grandes desigualdades, repressão política, sem liberdade, onde a mulher não tem direitos e quem critica o poder é severamente reprimido. A sua economia é sustentada pela produção do petróleo e tem pretensões nucleares. Foram estas pretensões que levaram à intervenção americana – a eliminação, redução ou adiamento da capacidade de enriquecimento de urânio e a eventual construção de uma bomba atómica, um perigo para Israel e para o mundo. O Irão não reconhece a existência de Israel e assegura que irá extinguir o estado sionista até 2040; financia grupos armados, como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina; e apoiava estados como o Líbano ou a Síria no execução de terrorismo contra Israel.
Ormuz foi uma antiga cidade portuguesa localizada numa ilha e estreito com o mesmo nome, na entrada do Golfo Pérsico. Foi longa e complicada a relação de Portugal com Ormuz, desde a invasão inicial (falhada) liderada por Afonso de Albuquerque em 1507, passando pela tomada da cidade em 1515 até à queda frente aos persas (aliados aos ingleses, no tempo dos Filipes), em 1622. Ormuz foi então arrasada pelos persas e, desde então, a ilha tem permanecido prostrada e quase desabitada, embora a cidadela portuguesa e os seus tanques de água subterrâneos tenham subsistido.
Mas o objetivo foi sempre claro, controlar o estreito que partilha o nome com a cidade, e assim controlar essa rota fundamental do comércio entre a Índia e a Europa através do Golfo Pérsico. Se no séc. XVI era o transporte das valiosas especiarias e outros produtos exóticos da Índia que motivava guerras entre portugueses e otomanos, hoje é o petróleo do Golfo Pérsico que torna o Estreito de Ormuz num local crucial na escalada de mais uma guerra no Médio Oriente.


