Opinião de Ricardo Neves de Sousa: Habitação com porteiro ideológico

A habitação é um problema extremamente sério que precisa de atenção emergente. Quem trabalha e continua sem conseguir sair de casa dos pais, ou chega ao fim do mês depois de entregar quase tudo ao senhorio ou ao banco, tem boas razões para estar revoltado. O Governo tem de dar respostas e aceitar que lhe exijam resultados, mas convém dizer a verdade às pessoas, pois um problema desta dimensão não se resolve numa semana, nem num mês, nem num mandato.
Compreendo, por isso, quem sai à rua. Os cidadãos têm o direito de se manifestar, de contestar medidas e de incomodar o poder. Devem fazê-lo pacificamente, dentro da legalidade e respeitando os direitos dos outros. Quem protesta nestas condições merece ser ouvido, mesmo quando as suas reivindicações não coincidem com o pensamento dominante.
Como tal, é precisamente por levar essas pessoas a sério que me incomoda ver a extrema-esquerda tentar aproveitar a sua preocupação e instrumentalizar o seu desespero. As televisões têm mostrado vários desses políticos entre os acampados e passeantes no Rossio e na Praça D. João I. Têm todo o direito de lá estar, no entanto, o problema começa quando alguns dirigentes se comportam como donos do protesto e usam a dificuldade de milhares de famílias para promover uma agenda que vai bastante além da habitação.
Há setores da esquerda radical que procuram no eco dos megafones o poder que as urnas lhes negaram, esquecendo que o povo também mora fora da praça, em milhões de portugueses que pensam de outra maneira e cuja confiança se conquista com argumentos e não com provocações.
As assembleias populares podem discutir o que entenderem e aprovar as reivindicações que quiserem, mas as suas votações não lhes dão autoridade para suspender a lei pois, a democracia ficaria bastante mal servida se o poder dependesse de quem chega primeiro com uma tenda e uma aparelhagem.
Também me custa perceber a quantidade de causas que se juntaram debaixo do cartaz da habitação. Vejo bandeiras da Palestina, LGBT, “keffiyehs” com fartura e simbologia comunista e anarquista, mas, curiosamente, a bandeira portuguesa não a encontro. Cada um que desfralde a bandeira que entender, mas gostava de perceber que ponte liga esta procissão de micro causas à renda de um T1 em Matosinhos, a uma vivenda na Guarda ou a um quarto em Lisboa? Se cada bandeira ao vento baixasse o preço das casas, a crise resolvia-se numa retrosaria, faltando apenas explicar aos profissionais da revolução que as chaves de uma habitação não se vendem ao metro.
Neste sentido, houve um episódio no Rossio que merece toda a atenção. Um cidadão que exibiu uma bandeira de Israel foi cercado, insultado e agredido, acabando por ser retirado do local pela PSP. A presença de bandeiras palestinianas não tinha provocado semelhante reação, mas bastou aparecer uma bandeira diferente para se tornar necessária a intervenção da polícia.
Pelos vistos, a liberdade e a tolerância vinham com direito de admissão! Todos eram bem-vindos, desde que trouxessem a opinião certa e uma bandeira do catálogo autorizado. Aquele cidadão falhou a inspeção ideológica e precisou da polícia para o proteger dos apóstolos do pluralismo, a quem parece ter escapado esse pequeno pormenor de que a liberdade também pertence aos outros. Conviver com quem discorda revelou-se, afinal, uma exigência demasiado revolucionária.
O mesmo critério deve valer para tudo o resto. Quem estraga um monumento, destrói bens de terceiros ou agride a autoridade tem de responder pelos seus atos. A justiça de uma reivindicação não elimina essa responsabilidade e à polícia exige-se que faça cumprir a lei e que use apenas a força necessária. Os seus eventuais abusos devem ser apurados e é assim que se defende a autoridade num Estado de direito.
Tendo isto em conta, o que se passa em França devia servir de aviso a Portugal. Quando a revolta desemboca em pilhagens e ataques às instituições, a voz de quem protesta em paz acaba abafada pelo estrondo. Há setores da extrema-esquerda que parecem encontrar aí o seu ambiente natural porque a dificuldade dos outros fornece-lhes o combustível e o confronto oferece-lhes o palco e por isso, temo que estejamos a assistir, à nossa escala, a um ensaio desse caminho. Pelo meio, a família que precisava de uma casa arrisca-se a descobrir que foi recrutada como figurante para uma revolução cujo argumento nunca lhe deram a ler.
Entretanto, a renda vence-se ao fim do mês e a vida de quem procura casa não pode ficar à espera que os profissionais da agitação terminem o discurso. Governo e autarquias têm trabalho para fazer e têm de ajudar quem já não consegue esperar.
Respeito quem se manifesta ordeiramente e reclama uma vida melhor. Essa indignação pertence-lhe e nenhum partido ou movimento extremista tem o direito de a tomar de arrendamento. À extrema-esquerda que sonha governar por aclamação na praça, convém recordar que a democracia inclui o incómodo de convencer quem discorda. O voto de quem fica em casa vale tanto como o de quem empunha o megafone. Quem procura um teto onde possa finalmente assentar a vida merece ser tratado com esse respeito pois, já lhe chega a renda que paga, sem ter de sustentar também os sonhos revolucionários dos outros.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Ricardo Neves de Sousa

Deixe comentário