Os países nórdicos habituaram-nos a ser a grande referência em quase todos os indicadores de desenvolvimento. Daí o espanto redobrado perante as conclusões de um estudo publicado na “Nature Food”, em maio do ano passado: a Guiana é o único país do mundo que, neste momento, é autossuficiente nos sete grupos alimentares essenciais.
A análise a 186 países confirma a força da interdependência do comércio mundial, sendo muito reduzido o número dos que atingem a autossuficiência em cinco ou mais grupos. No extremo oposto, há seis nações – todas na Ásia – que não conseguem satisfazer as necessidades de nenhum grupo alimentar.
Não é o caso da China. O país de Xi Jinping atinge seis grupos alimentares e caminha a passos largos para alcançar os sete. Atingir este pleno constituirá um marco importante na sua afirmação económica internacional. Tanto mais porque estamos a falar de um país com 1,4 mil milhões de habitantes (a Guiana tem menos de 1 milhão de pessoas).
Sobre Portugal, ficamos a saber que somos autossuficientes em quatro grupos alimentares (frutas, hortícolas, lacticínios e carne). O nosso país continua, assim, longe da autossuficiência alimentar. Não há aqui nada de novo. Esta tem sido a nossa realidade desde, pelo menos, 1864, ano dos primeiros registos agrícolas sistemáticos da Direção-Geral de Agricultura. É isso: nem mesmo quando o discurso do regime gritava “O que é nacional é bom!” e havia campanhas do trigo e apelos propagandísticos para se plantarem batatas no espaço entre as vinhas.
Exceção feita às Cidades-Estado da Grécia Antiga, a autossuficiência costuma andar mal-acompanhada nos manuais da história: integrada em políticas nacionalistas, agendas isolacionistas e medidas protecionistas. As recentes confrontações entre potências económicas parecem sugerir um regresso a esse clima. Se a isso acrescentarmos o aumento do custo de vida e a disrupção das cadeias de abastecimento internacionais, a intenção de prosseguir o caminho da autossuficiência poderá revelar-se, agora, bastante oportuna.
Neste contexto, a reflexão sobre a autossuficiência articula diretamente com o conceito da segurança alimentar: a garantia de acesso regular e acessível a alimentos nutritivos para toda a população. Pela Europa fora, não faltam casos de sucesso de criação de circuitos de abastecimento curtos e de incentivo ao consumo de produtos locais e sazonais.
Por outro lado, face ao previsível agravamento da escassez de recursos vitais, como a terra arável e a água, é expectável que as comunidades queiram ter uma palavra a dizer no uso que lhes é dado. Com a reivindicação do direito dos povos a definirem as suas próprias políticas agrícolas e alimentares a ganhar força, este é o momento de se promover uma discussão aprofundada sobre a implementação de modelos de soberania alimentar.
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