Opinião de Fernando Pereira: A rua caiu no poder?

Escrito por Fernando Pereira

«O que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente, não é tanto a própria opinião, mas a audácia de pensar por si mesmo, algo que eles não sabem fazer» – Artur Schopenhauer

Aqui há uns dias “caí na sopa” num grupo de companheiros de jantar de um amigo. Era gente que falava alto, que assumia a autoridade sobre tudo o que se passava na mesa, no país e no mundo. A comer havia tiques omnívoros. O denominador comum nas conversas na mesa era sobre «a desonestidade dos políticos».
A indignação subia de tom com a passagem repetida de jarras de vinho pela mesa. Como se perceberá, eu estava condicionado porque as minhas relações com a maioria dos do grupo cingiam-se ao educado bom dia ou boa tarde.
Enquanto se discutiam as malfeitorias dos governantes e autarcas íamos assistindo a um jogo numa TV e presumi que estávamos a ver à borla num aparelho qualquer de TV pirata, porque, segundo as palavras do dono do aparelho, «não alimentava chulos».
Entre partes e apartes, fui constatando que uns e outros iam metendo umas cunhas para agilizarem alguns pendentes, que um cidadão comum sem acesso a “influentes” teria dificuldade em ver resolvidos. Claro que a gratidão por ver a coisa tratada seria objetivada no futuro em algo tangível, ou na troca de favores.
Cada vez era maior a raiva à impunidade dos políticos perante coisas que apareciam em letras garrafais, com títulos apelativos à “justiça popular” de cidadãos, que em certas circunstâncias me fazem lembrar a labreguice dos meus companheiros de deglutição de um jantar que só por ter apanhado uma boleia me desconfortou manter-me até ao fim.
As redes sociais são a caixa de sonância e ressonância de tanto “justiceiro”. Todos denunciamos e anunciamos patifarias, exceto as nossas e as de quem gostamos. Vou dar um exemplo caricato q.b. de uma determinada situação: aqui há uns anos uns técnicos de saúde foram condenados por burla ao SNS. As televisões, ávidas de reproduzirem até à exaustão, montaram um acampamento à porta do tribunal. Pasme-se que, passados uns anos, “tropeço” nas redes sociais num dos que foram condenados nessa situação e indignado contra os políticos porque defraudam sistematicamente o Estado perante o assobiar para o lado da justiça. Um verdadeiro recuperado!
O calor dilata muita coisa, as redes sociais e a imprensa coscuvilheira fazem pior e a sociedade tem que se conformar com novos espaços de julgamento.
Para recordar tempos idos aqui está uma das muitas pérolas do almirante Tomaz, o último presidente da ditadura: «Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados…».
Começar com Schopenhauer e acabar com Américo Tomaz mostra bem o estado a que se chegou.
Veraneiem-se muito!

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Fernando Pereira

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