Conduzo um carro elétrico vai para oito meses, o que justifica partilhar as primeiras impressões. Antes de mais, há que desmontar algumas falácias. Correm pelas redes sociais publicações que dizem que quem diz que os carros elétricos não produzem emissões se esquece das emissões necessárias à sua produção e depois ao seu desmantelamento em fim de vida. Certo, mas não se produzem emissões para produzir e desmantelar um carro a gasóleo? Que raio de argumento é este? Diz-se também que os carros elétricos são muito mais caros que os equivalentes a gasolina ou gasóleo. Parcialmente verdade, embora os preços tenham tendência a aproximar-se. Parece-me que os fabricantes se protegem do pouco que irão ganhar no pós-venda em manutenção, para além de haver questões relativas a propriedade industrial da fabricação de alguns componentes que encarecem o produto final. Outra questão que é habitualmente colocada tem a ver com o custo de substituição da bateria de tração. Diz a lenda que esta fica tão cara que mais vale mandar o carro para a sucata. Mentira: são muito mais baratas do que há uns anos e vão ficar cada vez mais baratas. Para além disso, há já fabricantes que dão um milhão de quilómetros ou dez anos de garantia à bateria de tração.
Posto isto, a condução. A precisão, o silêncio, a capacidade de resposta, a suavidade da condução, são inigualáveis. Quem conduzir um elétrico vai sentir como uma despromoção regressar a um veículo a combustão. A potência do carro está total e imediatamente disponível, o que se nota nas ultrapassagens ou nos sinais vermelhos. O custo por quilómetro é muito mais baixo de que num qualquer carro a combustão, mesmo dos mais económicos. Pelas minhas contas, num abastecimento misto (em casa e nas estações de serviço), a despesa é metade. Se for possível carregar apenas em casa, e aproveitando o desconto das tarifas bi-horárias, o custo é ainda mais baixo. Já o carregamento em autoestrada fica praticamente ao preço da gasolina, ou ainda mais caro. Tudo depende da velocidade e do tempo de carregamento, já que o pagamento é ao minuto. Uma vez que as baterias carregam mais devagar a partir dos 80%, não compensa carregar a partir desse limite. Por outro lado, o carregamento em corrente contínua não aconselha ultrapassar os 80%, quando em casa, com corrente alternada, já se podem atingir os 100% sem perigo para a duração da bateria.
Um problema grande é a exiguidade da rede de carregamento público. E, mais do que a exiguidade, verificar que de cada quatro carregadores podem estar avariados dois (uma média obtida por mim, empiricamente). Aconteceu-me parar em Santarém para carregar e ter de seguir para Aveiras ao não ter carregadores disponíveis em funcionamento. Outro problema é que quando há muitos carregadores em utilização no mesmo posto, a potência de carregamento, e por isso a velocidade, parecem estar distribuídos. Isto implica carregamentos mais lentos do que os anunciados 20 minutos dos 20 aos 80%. A lentidão da reparação dos carregadores avariados, ou vandalizados para roubo de cobre, torna tudo ainda pior. Então o vandalismo para roubo de cobre tornou-se generalizado. Não tanto nas estações de serviço, que têm vigilância permanente, mas nos estacionamentos dos hipermercados ou na via pública. Outro problema é a imprevisibilidade da autonomia: o frio, a velocidade, as subidas podem alterar drasticamente a autonomia prevista, pelo que só a experiência ajudará a planear devidamente uma viagem, mesmo que com a ajuda de aplicações como o ABRP.
Algumas certezas: conduzir um elétrico implica mudar hábitos e obriga a baixar a velocidade, já que conduzir mais depressa obrigará a parar mais vezes para abastecer e nem sempre há a garantia de o conseguir; o custo por quilómetro, após algum treino, é muito mais baixo do que nos veículos a combustão; sem uma melhoria substancial da rede, em dimensão e garantia de manutenção, vai haver problemas graves a curto prazo.


