Opinião de António Ferreira: O que oferece a extrema-direita

A natureza não nos dá descanso. Tivemos agora inundações e ventos destruidores, um comboio de tempestades e neve como não se via há décadas. No Oceano Pacífico forma-se um novo El Niño, com promessas de que 2027 vai ser especialmente quente. 2026 também, já agora. A massa vegetal que as últimas chuvas prometem espera apenas pelo Verão para se incendiar, como acontece todos os verões, e cada vez com mais violência. Dizem os cientistas que as alterações climáticas têm origem humana e que são consequência da produção de gases com efeito de estufa, começando pelo vapor de água do início da era industrial, continuando pela utilização maciça de combustíveis fósseis e a agropecuária intensiva. A extrema-direita acha que não e nos países em que está no poder, como nos Estados Unidos, tudo faz para boicotar a produção de energias limpas e aumentar a produção e consumo de hidrocarbonetos.
Em março de 2020, no dia 6, era declarada uma pandemia de SARS Cov-2, o vírus que provoca a Covid. A ciência conseguiu produzir uma vacina baseada na tecnologia “ARN Mensageiro” em tempo recorde. Em janeiro de 2021, a vacina começou a ser distribuída a nível global e as mortes, que até aí se contavam pelos milhões (cerca de 15 milhões em todo o mundo, calculados pelo excesso de mortalidade durante a pandemia), começaram a diminuir. Em Portugal, tinham chegado a morrer mais de 500 pessoas por dia. As mortes foram tantas que a esperança média de vida baixou, pela primeira vez em muitas décadas, ao ponto de baixar também, pelo menos em Portugal, a idade da reforma por velhice. A extrema-direita acha que não. A Covid, dizem, foi um boato. Era uma gripezinha. As pessoas morriam de outras causas e “eles” atribuíam essas mortes à pandemia. As vacinas? Só faziam mal e muitas pessoas morreram não de Covid, mas da vacina. Esta, já agora, para além de outras doenças graves provoca autismo. Estas ideias e esta recusa à vacinação contra doenças evitáveis e quase erradicadas estão a trazer de volta, por exemplo, o sarampo, com gravíssimos surtos em vários pontos dos Estados Unidos. Precisamente onde a extrema-direita é mais votada.
Estes ataques à ciência são também ataques à educação e à cultura. Trump e Bolsonaro atacaram as universidades e a ciência. Os charlatães, como Robert F. Kennedy Jr., chegaram ao poder. Organizações como a OMS perdem financiamento. O método científico (observação, pergunta, hipótese, teste, análise e conclusão) é substituído por dois ou três vídeos no YouTube, protagonizados por tipos pouco recomendáveis, impantes de ignorância agressiva, e influenciam depois decisões políticas.
Tudo isto é terreno fértil para o aparecimento de teorias da conspiração, amplificadas pelas redes sociais, em que o alvo é o “sistema” e a cura um qualquer populista. A falta de escrutínio sério a essas ideias e de combate nas mesmas áreas piora tudo. Os algoritmos das redes sociais divulgam mais essas teorias da conspiração do que a sua refutação: a ciência é chata e demora mais a demolir uma mentira do que a enunciá-la; há mais visualizações se o “post” trouxer algo inesperado, ou escandaloso, e quem diz mais visualizações diz mais receitas de publicidade.
O que oferece então a extrema-direita? Vou oferecer a resposta em duas palavras, inventadas agora mesmo, mas que dizem tudo: emburrecimento e crapulização.

Sobre o autor

António Godinho Gil

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