Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Regressos do futuro

Assim de repente, já passaram os primeiros vinte e cinco anos deste século. Se for tão bom para a frente como foi para trás, a criogenia humana parece uma boa solução para os setenta e cinco que faltam.
Foi também de mansinho que começou o ano de 2026, primeiro quase sem se dar por ele – a não ser que se estivesse à janela a ouvir lançamento de fogos de artifício ou disparos de armas de fogo, dependendo do nosso concelho de residência. Estava o ano a correr benzinho, e acorda-se um dia com a Venezuela invadida por helicópteros americanos e o presidente Maduro capturado. Não serei eu aqui a lamentar a saída de ditadores do poder, mas da forma como o mundo está, por cada ditador que cai, há um que se levanta. Por via das dúvidas, vou sempre escrever 2026, para não confundir quem possa pensar que estamos em 1326 ou 1726.
O presidente americano que ainda há dias considerava perfeitamente possível – e desejável – haver eleições na Ucrânia, um país bombardeado diariamente, com vinte por cento do território ocupado, e com um número significativo de população deslocada (e ocupada), acha agora que não há condições para realizar eleições na Venezuela. Eu bem tento fazer piadas com a actualidade, mas o presidente Trump passa as semanas investido em fazê-las sozinho e roubar protagonismo aos cronistas.
Outro exemplo: um membro do staff da Casa Branca contou que Donald Trump ficou muito aborrecido, ou decepcionado, ou lá o estado de alma que tenha uma criança de cinco anos, por Corina Machado ter aceitado o Prémio Nobel da Paz, em vez de o recusar e indicar Trump como o verdadeiro vencedor. Numa entrevista à estação Fox, Machado lá se viu obrigada a dizer que gostaria de partilhar o prémio com o menino das birras. Já estou mesmo a imaginar o Comité Nobel norueguês a emendar os livros de registos e escrever o nome de Donald Trump antes do de Corina Machado, como o rapaz dos amuos fez com o anteriormente estimado e conhecido como John F. Kennedy Center for the Performative Arts. Ou os noruegueses a telefonar ao homem das casmurrices a convidá-la para aparecer em Oslo, se a senhora venezuelana lhes tivesse dito que afinal não ia e que dava a medalhinha a Trump. Já sabíamos do YouTube que as coisas mais engraçadas da internet são feitas por gatos e por crianças.
Ainda nem dez dias tem este ano, e a esperança dos optimistas já não é bem que acabe a guerra na Ucrânia e no Médio Oriente e na Ásia, já é mais que não passe as fronteiras da União Europeia, seja em qualquer país do Báltico, seja na Gronelândia. Portugal por enquanto parece estar safo, porque os ditadores estão um bocadinho obcecados com essas terras gélidas, mas não digo nada se este frio que tem feito nos últimos dias continuar.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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