Escrevo no dia de Carnaval. O dia em que não é feriado, mas também não é dia de trabalho. O dia em que a folia é institucional – ao contrário do resto do ano, em que as instituições parecem uma palhaçada. Esta é também a altura do ano em que o Inverno vai dando lugar aos primeiros sinais da Primavera. A própria atmosfera entende bem as regras e enxurrou Portugal de água e vento antes do Carnaval chegar. Comboios de tempestades invernais depois do Carnaval não são tragédias, é incompetência do sistema climatérico.
Diz o povo que a vida são dois dias e o Carnaval é que são três. A leitura hermenêutica do ditado mostra que os portugueses acham que a vida é curta, mas o Carnaval é demasiado longo. E como também dizem que no Carnaval ninguém leva a mal, os habitantes do cantinho lusitano demonstram a sua habitual resignação. “Faz lá as tuas pantominices no tempo para isso destinado, e depois deixa-te mas é de brincadeiras, que a vida – que são só dois dias – não está para risos”. Os portugueses, sempre grandes filósofos do pessimismo, conjugam a teoria da comédia com o fatalismo de Pascoaes.
O Carnaval português contemporâneo é uma mistura das tradições pagãs do fim do Inverno, do neoclassicismo renascentista da península italiana, dos batucantes desfiles brasileiros e do efeito “boomerang” do Halloween. Este sincretismo, a que a comunicação social habitualmente chama “tradições”, tem grande ênfase em ajuntamentos de pessoas a percorrer as ruas – que nesta época se devem designar “corsos”.
A diferença entre corso e outras formas de andar na rua ao lado de muita gente é uma das distinções verdadeiramente importantes para compreender o país e o mundo. Apesar de todas serem um conjunto de pessoas a caminhar por vias públicas, a sociolinguística portuguesa distingue conceptualmente entre desfiles, paradas, manifestações, procissões, caminhadas, marchas – e corsos. Não há corsos pela Palestina, apesar de serem quase sempre risíveis. Não há procissões contra o Pacote Laboral, embora seja muitas vezes uma questão de fé. Não há paradas da Nossa Senhora dos Aflitos, no entanto, os fiéis também juram obediência.
Como a Universidade está fechada, mas não é feriado, o melhor é ficar em casa, não vá dar-se o caso de esbarrar contra um corso e acabar em procissão para fazer uma caminhada.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


