A cada semana, na hora de escrever a crónica e decidir o tema, o tópico, o assunto, releio as notas que fui escrevinhando nuns caderninhos durante a semana, para encontrar aquele que possa ter sido o mais relevante. Dou conta que oitenta por cento das minhas notas são parvoíces ditas pelo presidente dos Estados Unidos. Tenho ouvido discussões interessantíssimas sobre uma espécie de psicanálise geopolítica, que vão do diagnóstico de demência feito à distância até declarações de genialidade retórica. Eu, que sou um tipo simples e adepto de uma hermenêutica fenomenológica do discurso, não infiro doenças ou elevados QI através de arrazoados palavrosos com muitas maiúsculas numa rede social. Leio e ouço apenas as suas palavras, e interpreto o que elas dizem – na maioria das vezes, são parvoíces. Entre destruir uma magnífica civilização e construir um magnífico arco do triunfo, tudo naquela cabeça é magnífico, espectacular, excelso, soberbo. Não falo do conteúdo, refiro-me aos adjectivos usados para descrever tudo o que pretende fazer.
Sobra-me, por isso, pouco espaço para ir referindo outros assuntos, porque entre fechar o estreito de Ormuz para impedir que o Irão feche o estreito de Ormuz, um acordo nuclear com o Irão praticamente igual ao acordo que Obama fez em 2015 e Trump rasgou em 2017, as imagens de IA em que se imagina Jesus Cristo, as declarações do seu vice-presidente pedindo ao Papa cuidado quando fala de teologia, a vontade manifestada pelo próprio e pelos seus apoiantes de concorrer a um inconstitucional terceiro mandato, a megalomania do salão de baile, a admiração devota a Vladimir Putin, um cronista vai-se esquecendo que o preço das casas em Portugal foi o que mais subiu em todo o mundo nos últimos cinco anos, que gente aparentemente pacata ataca manifestações pacíficas com cocktails molotov.
Sobra pouco espaço para relembrar que Pacheco Pereira achou boa ideia debater com André Ventura, e ainda não percebeu que não era assim tão boa ideia, porque uma coisa é um debate, outra coisa é uma pega de caras. Pacheco quis parecer o forcado que leva com o touro na peitaça, mas acabou como o rabejador que pega no rabo do bicho enquanto este dá aos cornos. Não discordo de Pacheco Pereira que é preciso domar estas feras. Temo é que precisemos de uma arena de gladiadores para o fazer.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


