O mês de agosto é o mês que todos esperamos durante o resto do ano. É o mês das férias, da família, do reencontro, do lazer, dos passeios longos e das tardes de calor, da esplanada e da praia, das festas e dos concertos…
É o mês em que os portugueses emigrados regressam para “matar” saudades. “O meu querido mês de agosto”, que Dino Meira cantou, retratando a nostalgia e o sentimento dos emigrantes que, vivendo longe da terra, levam o ano inteiro a sonhar com o mês de agosto.
Em 1988, perante uma plateia da diáspora no Clube Português de Buenos Aires, José Saramago terá dito que «ser emigrante não é deixar a terra, é levar a terra consigo». A frase, como escreveu Iuri Portalegre, inscreve-se no léxico emocional de um país.
Mais de dois milhões de portugueses vivem espalhados pelo mundo. Partiram à procura de “melhor vida” e regressam sempre que podem – e em agosto regressam todos. Guardam no coração um Portugal que já não existe, fechado numa lata de conserva como se a terra não mudasse mesmo depois de o mundo ter mudado. São emigrantes que choram quando partem e choram quando regressam. Que choram pela alma portuguesa e choram de saudade. Nunca renegam a pátria, mesmo quando já mal sabem articular uma frase na língua materna. Vestem a camisola do Ronaldo e vão a jogo mesmo quando já não percebem o país onde nasceram. Sentem a ditosa pátria como ninguém e nunca renegam as cores nacionais, olham para trás com saudade, mas as lágrimas que lhes correm na face são sempre de felicidade ao voltarem à terra, mesmo que seja de passagem e o que deixaram para trás já não exista.
Cerca de 30 por cento dos jovens portugueses continuam a partir…
Já não é o emigrante que parte a “salto” e leva uma mala de cartão cheia de sonhos, que foge à miséria e à guerra colonial, espoliado de tudo, que vai trabalhar duro para um dia regressar e exibir o sucesso que não conseguiu no seu país. Hoje, os jovens continuam a emigrar aos milhares, mas levam a instrução (o curso) como ferramenta para o sucesso. Vão à procura de melhores salários com menos trabalho. Deixam para trás o país que ousou mudar, conquistou a liberdade e construiu um regime democrático. Um país que, em 50 anos, cometeu o milagre de passar de nação analfabeta para uma sociedade moderna, com níveis de escolaridade elevados, com conhecimento, licenciados e doutorados. Um extraordinário esforço de todos os portugueses e que alguns jovens não reconhecem. Um país que formou os seus filhos que, legitimamente, partem por dinheiro, por vezes egoisticamente e, ingratos, viram as costas à terra que lhes deu a educação, as ferramentas e o curso para terem sucesso e melhores salários em outros países…
Num tempo em que as migrações são mais intensas e recebemos imigrantes de outras latitudes, que vêm trabalhar em tudo o que os portugueses já não querem fazer, temos de regozijar-nos pelo sucesso do país, devemos rejubilar pelo sucesso dos nossos emigrantes, mas também devemos saber integrar os imigrantes que vêm trabalhar e viver nas nossas terras. Todos juntos faremos mais e melhor país… em agosto e todo o ano.
PS: O mês de agosto já não é o que era, passa depressa e, em 2025, vai ficar na memória pelo flagelo dos incêndios. Ardeu tudo por toda a região.
O último agosto não foi de festa, foi de tristeza, de lágrimas e tragédia pela destruição das nossas terras. Perante o sofrimento de quem ficou sem nada em consequência dos incêndios na região, “o meu querido mês de agosto” voltará em 2026. São os nossos votos.


