Mitocôndrias e Quasares de António Costa: Raymond Smullyan: O homem que transformou a lógica num desafio apaixonante

Escrito por António Costa

Falar de Raymond Smullyan é falar de alguém que conseguiu algo raro: tornar a lógica simultaneamente rigorosa e entusiasmante. Matemático de formação, lógico por vocação e divulgador por talento, Smullyan construiu uma obra que continua a desafiar leitores muito depois da sua morte, em 2017.
Nascido em Nova Iorque, em 1919, revelou desde cedo interesses diversos, tendo sido um pianista competente e mágico amador, atividades que marcaram a sua forma de comunicar. Tal como na música ou na magia, também na lógica existe estrutura, surpresa e precisão. Essa sensibilidade transparece nos seus livros. Cada problema é apresentado com cuidado, cada detalhe conta e o desfecho depende da atenção do leitor.
No plano académico, Smullyan trabalhou em áreas centrais da lógica matemática, nomeadamente na teoria da recursão e nos fundamentos da matemática. Interessava-se por entender o que pode ou não pode ser demonstrado num sistema formal. A influência de Kurt Gödel é evidente no seu percurso intelectual, sobretudo no que diz respeito aos limites da formalização e aos fenómenos de autorreferência. Contudo, ao contrário de muitos especialistas, Smullyan não ficou confinado ao discurso técnico.
Foi através de livros dirigidos ao grande público que alcançou maior notoriedade. Em “What Is the Name of This Book?, The Lady or the Tiger?” e “To Mock a Mockingbird”, apresentou mundos habitados por cavaleiros que dizem sempre a verdade e patifes que mentem sempre. A partir destas regras simples, desenvolveu enigmas de grande subtileza. O leitor é levado a testar hipóteses, a construir cadeias de inferência e a lidar com declarações que falam sobre si próprias.
O que torna estes livros especiais não é apenas a engenhosidade dos problemas, é a forma como introduzem, quase sem que o leitor se aperceba, ideias profundas sobre consistência, prova, decidibilidade e paradoxos. Resolver um enigma pode parecer um jogo, mas é também um exercício de disciplina intelectual. Smullyan mostra que a clareza lógica não é um luxo académico. É uma ferramenta essencial para pensar com precisão. A sua escrita é direta e acessível, sem perder exatidão. Evita jargão desnecessário e confia na capacidade do leitor para acompanhar raciocínios exigentes. Esta combinação explica por que motivo os seus livros continuam a ser usados em contextos educativos e recomendados a quem quer iniciar-se na lógica.
O legado de Raymond Smullyan é claro. Demonstrou que a lógica não é um território árido reservado a especialistas. É uma prática viva, que exige atenção, imaginação e rigor. Ao transformar problemas formais em desafios envolventes, mostrou que pensar bem pode ser uma atividade exigente e profundamente estimulante.

Sobre o autor

António Costa

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