Editorial de Luís Baptista-Martins: Portugal, o país que guarda petróleo em França

Em 2021, a Galp encerrou a refinaria de Matosinhos, concentrando a refinação em Sines e reduzindo custos. Para a empresa, a decisão tinha lógica económica. Para o país, porém, significou perder uma parte importante da capacidade de armazenamento de crude e produtos petrolíferos.
O problema não surgiu no dia do encerramento. Surgiu quando alguém percebeu que as reservas estratégicas continuavam a ter de ser guardadas.
Em 2025, a Galp informou que já não poderia manter parte dessas reservas. Portugal ficou sem espaço suficiente e encontrou a solução possível: enviou mais de 132 mil toneladas de crude para Manosque, em França, por cerca de 2,1 milhões de euros.
O petróleo continuou português. Só deixou de estar em Portugal.
Agora, o Governo prepara-se para investir cerca de 60 milhões de euros na criação de nova capacidade de armazenamento nacional, para que, dentro de alguns anos, aquilo que mandámos para França possa regressar. E haverá ainda que pagar o transporte de volta.
Há uma ironia adicional: guardar o crude em França é actualmente mais barato. Ainda assim, uma reserva estratégica portuguesa, por definição e bom senso, talvez devesse estar em território português. Não é exactamente uma descoberta revolucionária. Mas foram precisos vários anos e 132 mil toneladas de petróleo para chegar a esta conclusão.
Compreende-se que a Galp faça contas. Se a refinaria de Matosinhos deixou de ser economicamente interessante, a empresa tinha razões para a encerrar. A responsabilidade estratégica era do Estado: garantir que a perda de capacidade de refinação não significava também a perda de capacidade nacional de armazenamento.
É essa a verdadeira questão. Não se discute aqui o lucro de uma empresa, mas a capacidade de um Estado antecipar aquilo de que sabe que vai precisar.
Portugal perdeu capacidade de refinar e armazenar, enviou petróleo para França e agora vai gastar dezenas de milhões para recuperar o espaço que perdeu.
No fim, fica uma pergunta simples: quanto custa a falta de planeamento?
Pelo menos 60 milhões de euros. E ainda falta pagar a viagem de regresso.
Num tempo em que os conflitos internacionais se intensificam e o preço do petróleo é estratosférico, não basta exigir ao governo redução de impostos sobre os combustíveis. É preciso perceber o que “andámos” a fazer para aqui chegar. Portugal é dependente de combustíveis fósseis, investimos, e bem, nas renováveis, mas aumentámos o consumo de combustíveis. Vamos ter de nos habituar a pagar o gasóleo e a gasolina a mais de dois euros o litro, até porque refinamos menos, armazenamos menos e há menos petróleo disponível… E, sim, vamos ter de aprender a poupar combustível, andando em viaturas elétricas, à boleia ou de transporte público. O mundo mudou. É a epifania energética.

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Luís Baptista-Martins

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