Quatro anos de guerra na Ucrânia revelam um drama humano sem precedentes, pelo menos desde a II Guerra Mundial: cidades transformadas em escombros, famílias separadas pela fome e pelo medo, milhares de mortos e milhões de refugiados. As crianças crescem conhecendo apenas o som das explosões e a frieza dos abrigos subterrâneos. Apesar do sofrimento, a resistência ucraniana permanece firme – não por ódio, mas por orgulho de uma nação que luta pela sua existência.
Esta tem sido a vida diária na Ucrânia nos últimos quatro anos, desde a invasão da Federação Russa em 24 de fevereiro de 2022. Imagens de cidades com prédios em ruínas, abrigos subterrâneos e trincheiras tornaram-se comuns, parte do ciclo de notícias global, ameaçando transformar o inaceitável em algo corriqueiro. Uma guerra convencional no coração do continente europeu parecia impossível, mas testemunhamos contraofensivas, mobilizações, alianças, crises energéticas e assassinatos.
O sofrimento e a dor permanecem reféns de estratégias de conquista e vingança; as tentativas de mediação e as conferências de paz obtiveram pouco: as armas continuam a prevalecer.
Não nos acostumamos à guerra, a nenhuma guerra, mas o tempo passa, confirmando a inevitabilidade de quem semeia apenas destruição e rouba sonhos, esperanças e desenvolvimento.
No último domingo, o Papa Leão XIV voltou a pedir com veemência pelo fim imediato das hostilidades, olhando a realidade: «Quantas vítimas, quantas vidas e famílias destruídas! Quanta destruição! Quanto sofrimento indizível».
A Europa testemunha, impotente, como a brutalidade se torna rotina. E a América de Trump, que garantiu o fim da guerra em 24 horas, afasta-se e deixa os ucranianos abandonados e os europeus a suportar todo o custo da guerra. Um custo muito alto e que fez crescer a inflação na Europa e o empobrecimento generalizado dos europeus. Até quando poderemos pagar esta guerra?
Pior, a aliança vai abrindo brechas, a Europa unida contra o invasor vai cedendo. Depois da Hungria de Orban, também a Eslováquia quebra. O petróleo russo, que os ucranianos cortaram, faz falta para aquecer os eslovacos e os húngaros perante um inverno rigoroso – quem não soçobraria? E Zelennky? O anti-herói, comediante-presidente, que não se vergou perante a força russa, mas cujo tempo está a chegar ao fim… A Ucrânia ganhou ao resistir, mas a partir de agora terá de ceder – não será uma rendição, será um ato de sobrevivência imprescindível – terá de ceder território: o Dombass que há mais de 10 anos reclama independência da Ucrânia e é maioritariamente de etnia russa; a Crimeia há 13 anos ocupada pela Rússia e que não que regressar à Ucrânia… A Rússia, depois de centenas de milhares de mortos (1,2 milhões de baixas), pode continuar a enviar os seus jovens para a guerra durante mais uns anos, mas a Ucrânia não, precisa de paz. E a Europa, na sua solidariedade solitária, tem de ter o engenho de arranjar uma solução, porque não pode continuar a cavalgar o impossível: a vitória ucraniana (a manutenção integral do território). A guerra tem de parar, para salvar o povo ucraniano, mas também o europeu. Glória à Ucrânia, que, quatro anos depois de invadida pela Rússia, resiste às duas maiores potências nucleares do mundo. Mas, agora, quatro anos depois, tem de haver uma solução, tem de haver paz, mas para isso alguém terá de aceitar perder, e a Rússia não será seguramente…


