Escreve-lhe. Escreve demoradamente aquilo que gostavas de ter dito e não saiu. Escreve sentado na sala de estar. Escreve sobre a mesa, com uma boa caneta, pensando as palavras, referenciando as ideias aos acontecimentos. Demora para especificar com precisão. Faz a carta antes de seres operado. Faz a carta a contar-lhe como a maleita te consome, como há riscos que se vão correr. Escreve a carta sobre os assuntos que querias falar e não esqueças que a doença foi só o gatilho. Não foi por isso que escreveste. Se fosse, estavas a pedir pena, ou solidariedade. Não precisas. A doença é como um cão que corre para ti e tens de o enfrentar. O assunto é entre ti e o cão. Pode acabar em festas, em cauda que abana, em pontapé, em gritos de medo. Agora estás a escrever para sepultar temas passados, conversas que ficaram por fazer, reparos que não foram ditos, reclamações engasgadas. O assunto não és tu. O assunto não é o tratamento. Escreve-lhe porque podes morrer e isto ensombra a tranquilidade. Escreve aos filhos e define a herança. Escreve à criada. Antes de entrares para a operação escreve. Organiza a tua vida para estares calmo.


