Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Reverberar

Escrito por Diogo Cabrita

A utilização de termos específicos de conhecimentos técnicos é muitas vezes uma aquisição vantajosa para o discurso político ou a ciência. Fertilizamos o saber introduzindo conceitos que antes eram definições estritas. Assim surgiu a ideia de um político resiliente, um carácter forte que resiste a toda a adversidade, se ergue depois da contundência. Veio mais tarde o estribilho da narrativa para bem situar uma conversa temática, construída sob um prisma atordoado.
Reverberar é uma palavra utilizada na sonoridade para descrever o que permanece e retoma apesar do gatilho ter encerrado. Usa-se na Psiquiatria para esclarecer as alterações que persistem em acrescem surtos violentos em relação a traumas antigos. A vítima coloca em conflito duas partes do cérebro: a amígdala e o hipocampo. Uma devia sossegar a memória, acolchoar no passado a dor e viver o presente sem sobressalto. Mas no trauma da guerra, ou da infidelidade, ou da perda de alguém, há uma perpetuação de imagens que regressam e reverberam no cérebro ferido. Não é um dano psicológico, mas sim um problema funcional e neurológico. A amígdala (um alarme), independentemente dos raciocínios, ativa emoções como medo, defesa em riste e torna o hipocampo (supostamente a biblioteca, o arquivo) num anseio descontrolado. O ontem chega-se à frente e converte-se em agora. Está a acontecer e doi como no dia do trauma. O hemisfério esquerdo (do lógico) tem de ser trabalhado para ajudar as respostas do hemisfério direito (da emoção).
Reverberar é uma técnica dos populistas para construir medos e exercer votos emocionais. Atenção que populistas, aqui, não tem lugar específico na bancada parlamentar – eles estão por todo o lado.

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Diogo Cabrita

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