O rio, quando transborda, é violento e destrói os que ousaram usufruir da sua margem. Mas, diariamente, o rio segue seu destino para o mar. Durante anos infindos, as águas passeiam-se no leito de sempre. Um dia a chuva é muita, o degelo começa nas montanhas, as casas foram-se incautamente aproximando da margem, alguém desviou o leito nuns percursos urbanos e ele galga as bordas e engole tudo o que foi feito sem permissão. O rio desce sereno quase sempre, mas às vezes não. Essa magia de respeitar a temperança prolongada em prol dos poucos dias de fúria é também a ciência das relações humanas. Os homens convivem calmos até que não. As pessoas trabalham juntas até que fartam. O rio de sangue que nos percorre acelera, transborda as faces, percute rápido o coração e lá vem a trágica desavença, a frase feia, a acusação magoada, a intempérie a engolir as margens. O rio é uma lição se estiverem atentos. Não transborda sem causas claras, não se enche de pingos pequenos, mesmo que muitos. Ele tem essa função de inundar aqui e ali. Ele tem de matar para que se fertilizem terras e apaguem memórias. A morte é rara, mas vem com tudo e arrasa e ensina. Em 1968, Bendit afirmava que «todos dizem violento o rio que transborda, mas ninguém chama violento às margens que o comprimem».
A inundação é como o fogo, a tempestade, o nevão, o tremor de terra e duram pouco, porque têm um impacto tremendo. Não são alterações do clima, são a realidade de sempre que se manifesta quando quer, e magoa porque se esqueceram que volta. Como as pessoas apertadas, encurraladas, mal tratadas, algumas transbordam.


