Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Fruindo sem nexo

Escrito por Diogo Cabrita

Perversão é acreditar sempre que nos querem enganar. E às vezes é verdade. E às vezes enganam. Mas o mundo não se decompõe e as pessoas não se transformam todas ao mesmo tempo, nem de modo igual. A realidade é a multiplicidade e, portanto, a vida é um jogo de encontros, uma roleta de coincidências. Na minha verdade, a maioria não são pessoas más, mas deve haver onde são. Como os cães, nem todos mordem. Alguns sim. As pessoas calham no percurso e podem alumiar, podem enegrecer, podem fazer sombra, podem competir, podem prejudicar. Um vizinho, um colega, um taxista, um vendedor de carro pode ser uma surpresa feliz. Também há os que nos infernizam, os que nos desiludem. A multiplicidade converte o caminho num jogo incrível. Agora há os que não cuidam de silenciar os telemóveis, os que conversam alto em qualquer lado, os que se sentam no café a ouvir “reels” e “tik-toks”. O silêncio incomoda muita gente. O olhar perdido no horizonte é uma iguaria. Estar numa enfermaria sem televisão deve ser raro. Entrar num café sem altifalantes surpreende. A pessoa que cuida de ser invisível na multidão é uma inspiração educativa. A multiplicidade desaparece quando nos tornamos todos iguais, quando vestirmos voluntariamente fardas, ouvirmos os mesmos programas, escutarmos as mesmas músicas. Nesse futuro somos formigas nos carreiros seguindo ordens dos chefes, cumprindo ordem unida.

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Diogo Cabrita

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