O mundo vai acabar. As minhas certezas têm aumentado todas as semanas, porque os anúncios vão-se acentuando. A cada dia, cresce o consenso sobre o fim dos tempos.
É o clima, é a guerra, é a chinfrineira. Para uns, o mundo acaba porque há racismo a mais. Para outros, o mundo acaba porque há racismo a menos. Há quem acredite que isto está nas últimas porque os homens querem ser mulheres, há quem julgue que isto já não dá mais porque não deixam as mulheres ser como os homens.
Uns queixam-se que não se pode dizer nada, outros queixam-se de se poder dizer tudo. Quem se acha de esquerda, grita que a extrema-direita vai destruir este mundo. Quem se acha de direita, berra que a extrema-esquerda quer destruir estre mundo. Todos acham que o fim está próximo, e a culpa é sempre dos outros.
Há uns iluminadinhos que desejam o fim deste mundo, mas que a seguir venha outro melhor. A minha resposta a estes iludidos é uma expressão do antigamente: “Está bem, abelha”. Não nos devemos esquecer dos grupos de revolucionários e reaccionários que misturam o desejo insano de rebentar com este mundo mas vivem com o pânico louco de que sejam outros a rebentá-lo.
«Queremos partir isto à martelada, queremos, sim, senhor, mas queremos partir isto com o nosso martelo. Só o nosso martelo constrói. Os outros martelos só destroem. Se forem outros martelos, será uma desgraça e uma catástrofe», costuma ser a disposição geral desses grupos esquizofrenéticos. (saudações literárias, Mia Couto)
Por mim, o mundo pode acabar à vontade, desde que me deixem ficar sossegado com livros, comida e Coca-Cola. Tenho para mim esta ideia de que se andarmos entretidos com a nossa vidinha, os cavaleiros do apocalipse passam a galope e nem dão conta de nós.
Só tenho um desejo. Que a haver um fim do mundo numa encenação aparatosamente hollywoodesca, que não seja o tantas vezes citado “fim do mundo em cuecas”. Se é para haver um dia do julgamento final de proporções espectaculares, preferia que o Senhor me levasse para a condenação eterna com uma roupinha mais digna.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


