Anotações de Hélder Sequeira: Rádio e IA: um debate necessário

Escrito por ointerior

O Dia Mundial do Rádio foi assinalado na passada sexta-feira, 13 de fevereiro; uma comemoração instituída em 2011 pelos estados-membros da UNESCO, data que foi validada, no ano seguinte, pela Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Em 2026 o Dia Mundial do Rádio, subordinado ao tema “Rádio e Inteligência Artificial”, teve como objetivo fomentar o debate sobre como a tecnologia baseada em IA está a modificar a produção, a distribuição e o consumo dos conteúdos radiofónicos, mas alertando também para a importância da salvaguarda da ética, da acessibilidade, da criatividade e da confiança dos ouvintes.
Para a UNESCO, a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio ao rádio; aliás, como já anotámos noutras ocasiões, a IA apresenta novos caminhos para mais eficiência e, outrossim, múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes.
Naturalmente que um dos grandes contributos da inteligência artificial é dado ao nível da automação das emissões radiofónicas, apresentando-se como eminente suporte para produção de notícias, definição da sequência musical e de um conteúdo programático convidativo e diferenciado. Através de algoritmos e modelos automatizados a IA tem a capacidade de proceder à análise de uma enorme quantidade de informação, identificando padrões e desencadeando, consequentemente, procedimentos adequados.
Por outro lado, o acompanhamento constante das atualizações e publicações nas redes sociais pode ser efetuado de uma forma rápida, detetando tendências e assinalando notícias e temáticas que podem interessar aos ouvintes, despertando, consequentemente, uma maior atenção da sua parte.
Através de “software” adequado podem ser produzidas mensagens para as redes sociais assim como conteúdos destinados a plataformas digitais que ampliam o trabalho da estação emissora. Como escreveu Cristiano Stuani, a IA «pode utilizar-se para produzir textos e conteúdos para as redes sociais, personalizar anúncios e analisar dados de audiência, ampliando o alcance da marca e oferecendo publicidade mais relevante e efetiva para os anunciantes».
O debate em torno das implicações da inteligência artificial no meio rádio é atual e necessário, bem como a necessidade de um melhor conhecimento da diversidade de aplicações disponíveis; ao nível da automação, utilização de voz, criação de cópias de conteúdos, novas fórmulas de atração de ouvintes. Acresce a análise e clarificação das questões éticas, do impacto no emprego, da salvaguarda de direitos de autor e direitos conexos, da distinção de vozes criadas pela Inteligência Artificial. Assim a escolha desta temática, pela UNESCO, para ser debatida no Dia Mundial do Rádio, fez todo o sentido, deixando uma pertinente proposta de reflexão.
Na área da indústria de equipamentos para radiodifusão não tem faltado quem argumente que o uso abusivo da inteligência artificial poderá criar situações indesejáveis; para outros ajudará a personalizar os conteúdos das emissões de rádio, a automatizar tarefas repetitivas e a melhorar a qualidade geral da programação. Sustentam, ainda, que a inteligência artificial pode viabilizar economia de tempo para as emissoras, ao assegurar conteúdos para os períodos da noite e madrugada, criando rapidamente “podcasts” e outros materiais de áudio online para sites.
A utilização da inteligência artificial em novos equipamentos, produtos, serviços e inovações abre, assim, uma discussão ao nível político e ético, entre outras esferas de intervenção; vários especialistas, nesta matéria, fizeram já notar a existência de questões legais sobre os direitos de propriedade e autoria de conteúdos criado por inteligência artificial; alertando também para a clarificação da forma como as emissoras podem proteger, legalmente, os conteúdos próprios.
De facto, a discussão sobre a importância, vantagens e perigos da inteligência artificial deve prender a nossa atenção; não podemos olvidar que a humanização do Rádio é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do processo evolutivo deste meio de comunicação.
A tecnologia pode também contribuir para uma melhor compreensão das audiências, personalizando a experiência dos ouvintes e valorizando os arquivos sonoros; um exemplo elucidativo pode ser a recente sessão de escuta “… E temos o Povo”, que decorreu nos estúdios da Rádio Altitude. Tratou-se de uma audição dos sons da primeira montagem radiofónica do 25 de Abril, realizada por Pedro Laranjeira, Paulo Coelho e Adelino Gomes.
À margem desta sessão, e quando questionado sobre se a IA pode ser um perigo para o Rádio, Adelino Gomes dizia-nos que «a inteligência artificial pode ser um perigo para todos nós, não é só para o jornalismo, é para todo o cidadão», acrescentando haver esperança, «porque, afinal, todas as mudanças ao longo da história das civilizações foram mudanças que, primeiro, foram recebidas com muita precaução e até com medo, mas a humanidade, certas pessoas, conseguiram encontrar nelas a forma, o segredo de transformar aquilo que pode ser mau em coisas boas». Daí chamar a atenção para a prevalência de «um sentido crítico, como sempre tivemos», tanto mais que «nas redes sociais, os preguiçosos estão a fazer com que nós nademos no mar de falsas notícias. São os preguiçosos».
E neste contexto de novas tecnologias e afirmação da IA, é interessante anotar que a rádio está a renascer, a reinventar-se. «Os mais jovens, muitos já não vêm televisão, ouvem “podcast” e ouvem rádio. Acho que por muitos céticos que tínhamos sido sobre o fim da era da rádio, a verdade é que há um renascimento nesse sentido», comentava-nos Maria Inácia Rezola, comissária executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, data que ficou indelevelmente marcada na história da radiodifusão em Portugal.
O Rádio, apesar dos múltiplos condicionalismos, continua a ter futuro; onde a IA terá uma presença cada vez mais consolidada, mas a voz, a empatia, a humanização e a essência deste meio devem continuar a orientar as emissões radiofónicas.

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