Cara a Cara

«O Museu da Guarda é uma das instituições mais visitadas da cidade»

Thierry 2
Escrito por Diana Rodrigues

P – Como está o Museu da Guarda no seu 85.º Aniversário?

R – Está bem e recomenda-se. Tem acolhido exposições de arte e fotografia originais e estimulantes. Além disso, ao longo de todo o ano, o Museu continua a assumir um papel de destaque na oferta cultural da cidade, sendo, a par da Sé e da ExpoEcclesia, uma das três instituições mais visitadas ao fim de semana por turistas que procuram descobrir e explorar o património local, particularmente aos domingos. Atualmente, estão a decorrer no museu obras de requalificação, nomeadamente a substituição das janelas por novas. Alguns espaços internos já beneficiaram de intervenções de manutenção, assegurando melhores condições de visita e conservação.

P – Quantos visitantes recebeu no último ano?

R – Em 2022, o Museu registou cerca de 13 mil participantes, entre visitantes e envolvidos nas iniciativas culturais e educativas realizadas. Em 2023 ultrapassámos os 19 mil participantes. Já em 2024, os números estabilizaram à volta dos 16 mil. Esta variação deve-se essencialmente a três fatores: em 2023, o Museu foi visitado por centenas de jovens que passaram pela Guarda rumo à Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, beneficiou de uma forte adesão às visitas noturnas e encenadas às torres medievais da cidade e, em 2024, foi levado a reagendar o SIAC para 2025. Naturalmente, há iniciativas que não se repetem e propostas que, com o tempo, esgotam o seu potencial de atração. Ainda assim, a equipa do Museu acredita que a qualidade da programação cultural se manteve. (…) Importa ainda destacar que, em 2024, o Museu aumentou a sua produção de conhecimento e publicações face ao ano anterior.

P – Quais as apostas ou programação para o futuro?

R – A Museu da Guarda continuará a cumprir a sua missão de sensibilizar o público para a importância do património histórico e da participação cultural. Nesse sentido, apresentará uma programação diversificada, abrangendo áreas como história e arqueologia, conservação e restauro, arte contemporânea, música, apresentação de livros, conversas abertas, caminhadas temáticas e oficinas artísticas. O Serviço Educativo tem registado uma forte adesão por parte de famílias e escolas do ensino básico. O Museu tem apostado numa crescente descentralização da programação, com iniciativas em vários pontos do concelho, através da Rede Cultural e Criativa da Guarda. (…) O Museu da Guarda tem-se afirmado tem sido muito procurado por criadores. O elevado número de propostas de exposição e pedidos de colaboração recebidos é prova clara de que se tornou, de facto, “apetecível” para os agentes culturais. Para o próximo ano estão agendadas exposições, com artistas nacionais e internacionais, tanto consagrados como emergentes, numa dinâmica promovida pelo Museu ou em colaboração com fundações de prestígio.

P – Quais são as maiores dificuldades que o Museu da Guarda tem tido?

R – O Museu não tem enfrentado dificuldades significativas, funcionando de forma estável e com condições adequadas para desenvolver as suas atividades. No entanto, o edifício, datado do século XVII, apesar das obras de requalificação e manutenção realizadas nas últimas décadas, apresenta inevitavelmente alguns constrangimentos. Por exemplo, os visitantes com mobilidade reduzida necessitam de acompanhamento e apoio no percurso devido à existência de desníveis e escadas. A ausência de um monta-cargas dificulta não só a acessibilidade desses visitantes, como também o trabalho nas montagens e desmontagens de exposições. Reconhece-se ainda a necessidade de investir mais na comunicação em línguas estrangeiras. A instalação de um sistema AVAC permitiria um controlo mais eficiente da temperatura, humidade e qualidade do ar no edifício. Além disso, está a ser estudado um conjunto de estratégias orientadas para a promoção da inclusão.

Apesar destes desafios, até ao momento têm sido encontradas soluções e feitas adaptações que mitigam as lacunas identificadas. Ainda assim, é evidente que toda a infraestrutura cultural pode – e deve – ser continuamente melhorada.

P – Depois de um interregno, o SIAC regressou este ano. Qual é o balanço desta edição?

R – A equipa do Museu propôs realizar a 8ª edição na mesma semana em que se celebravam os 85 anos da instituição, conferindo um significado simbólico especial ao evento. Esta escolha revelou-se acertada, com uma constante adesão do público, tendo havido visitantes que participaram em praticamente todas as atividades programadas. No total, o SIAC registou 2.674 pessoas. O simpósio reuniu 35 criadores das artes plásticas e visuais, número ao qual se poderiam acrescentar dezenas de músicos, atores e autores, à semelhança da forma como eram contabilizados os participantes nas primeiras edições. Discutiu-se o papel e o mercado das artes nos contextos de Portugal, Espanha, Cuba, Ucrânia e Polónia. Foi dada a possibilidade a novos talentos de se estrearem no evento. Houve momentos de redescoberta de figuras como Frei Pedro da Guarda, evocado numa peça criada de propósito para o SIAC por Pedro Leitão, ou como os artistas Júlio Cunha, Maria Lino e Jerónimo Brigas. Um destaque especial vai para o professor Mário de Carvalho, que, aos 82 anos, realizou uma original cobertura do evento através de cartoons, conferindo-lhe um olhar bem-humorado. O ambiente de colaboração e camaradagem entre os artistas em residência contribuiu para uma edição especialmente produtiva e criativa. Como resultado, o acervo do Museu vai incorporar obras de arte bem sugestivas, valorizando ainda mais o seu património artístico.

P – E que impacto teve na cidade?

R – Para além das exposições e das memórias felizes deixadas pelas performances teatrais e concertos realizados, destacam-se três intervenções de arte urbana, de Telmo Lourenço, Styler e Desy CXXIII. Os guardenses acabarão por encontrar e apreciar estas obras nas suas deslocações pela cidade. Dado que o Campus Internacional de Escultura Contemporânea já possui um vasto acervo, o SIAC tem apostado, desde a quinta edição, em esculturas de fácil transporte de forma a viabilizar exposições itinerantes no futuro próximo. O impacto social e cultural tem sido claramente positivo: o ambiente de convívio foi muito agradável, os artistas estrangeiros e nacionais levaram uma boa imagem da cidade e houve turistas surpreendidos por encontrar eventos culturais desta natureza nesta época do ano. Embora o Museu não disponha de dados concretos sobre o impacto económico, é evidente que restaurantes, bares, alojamentos e fornecedores de materiais beneficiaram da presença prolongada dos artistas que não residem na Guarda.

P – O Simpósio irá realizar-se em 2026?

R – Com a experiência acumulada nas várias edições, a equipa do Museu está, naturalmente, disponível e preparada para organizar a 9ª edição do SIAC, cujo formato e alcance poderão ser sempre repensados. No entanto, a continuidade do Simpósio é, na verdade, uma questão de política cultural.

 

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Perfil

Nome: Thierry Proença dos Santos

Responsável pela coordenação do Museu da Guarda

Idade: 59 anos 

Naturalidade: Paris

Profissão: Técnico superior da Câmara da Guarda

Currículo: Realizou os estudos em França, tendo completado o secundário em Trancoso e na Guarda; Entre 1992 e 2019 foi docente da Universidade da Madeira; Obteve o grau de Doutor em Linguística Aplicada em 2007, em regime de cotutela entre a Universidade de Paris III e a Universidade da Madeira; Tem desenvolvido trabalho nas áreas da ensaística, curadoria editorial e coordenação de revistas e catálogos de exposições; É, desde setembro de 2019, técnico superior no município da Guarda, estando afeto ao Museu da Guarda

Heróis preferidos: Corto Maltese, de Hugo Pratt, e capitão Alatriste, de Arturo Pérez-Reverte.

Sobre o autor

Diana Rodrigues

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