Observatório de Ornitorrincos de Nuno Amaral Jerónimo: Contra o Lobo Mau, marchar, marchar

Nos últimos dias, segundo a opinião pública esclarecida, parece que a democracia ganha sempre. No Brasil ganhou Lula da Silva, na Sérvia ganhou uma lista de estudantes, em Israel – escrevo no próprio dia das eleições – há a possibilidade de Netanyahu não vencer. E em Portugal, já se sabe, ganha sempre o mesmo: Cristiano Ronaldo, que já está pré-seleccionado para os próximos jogos.
Não importa que o PT de Lula (Partido dos Trabalhadores, não Personal Trainer, que o presidente tem 81 anos, mas faz ginástica sozinho) tenha enxameado tribunais, universidades e outros serviços públicos com amigos e instalado uma gigantesca teia de favorecimentos e amizades. Ele é a democracia, dizem-nos. Não interessa que a lista de estudantes sérvios não tenha nenhuma plataforma eleitoral de ideias consistentes nem sequer um candidato a primeiro-ministro. Eles são a democracia, contam-nos. Não porque representem o ideal da democracia liberal – Lula até nem a aprecia por aí além, e o movimento dos estudantes sérvios a ver vamos – mas porque se opõem à vaga de populismos radicais que anda por aí.
O pior do parágrafo anterior é que um candidato velho, ligado a redes de corrupção, e com simpatias pela Rússia, e uma lista de estudantes e professores, sem qualquer programa, e sem simpatias pela Rússia acabam por ser – até para mim – um alívio. Um presidente do Brasil próximo de Trump e um governo da Sérvia próximo do Kremlin acabam por parecer muito piores do que um presidente amarrado a interesses instalados e a um governo que não faz ideia de onde e como se instalar.
Apesar disso, não deixo de reparar que as formas de controlo do espaço público estabelecidas pelo PT de Lula nos últimos vinte anos ou a ausência de programa político dos estudantes sérvios nunca é assunto para uma grande parte do jornalismo que se deixa encantar por contos de fadas e personagens superficiais. Para quem nos conta as notícias, o mundo nunca é complexo como um romance de Lev Tolstói, de Charles Dickens ou de Victor Hugo. A realidade é sempre uma mistura de Branca de Neve, Capuchinho Vermelho e os Três Porquinhos.
E claro, já se sabe que o fascismo, que está em todo o lado quando a esquerda não governa, é a Madrasta e o Lobo Mau.
Falta-nos apenas saber se Jorge Jesus será o Príncipe Encantado que salva a princesa com um beijo ou a Bruxa Má sacrificada na sua própria fornalha.

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

Nuno Amaral Jerónimo

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