Bilhete Postal de Diogo Cabrita: Toshikazu Kawaguchi

Escrito por Diogo Cabrita

A minha incursão pela literatura japonesa tem alguns autores como o incontornável Haruki Murakami, mas também Yukio Mishima, Mieko Kawakami, Hiromi Kawakami, Mitsuyo Kakuta e por sugestão da Rita Montezuma este Kawaguchi. O “oitavo dia” (Kakuta) foi uma surpresa pequena, e “antes que o café arrefeça” (Kawaguchi) uma melhoria da minha relação com a escrita que me chega do Japão. Na realidade ficarei sempre longe de saborear a literatura original e subtilezas, graças, expressões dúbias uma vez que essa arte de traduzir, por melhor que seja, não alcança o nativo na sua expressão. Chega-me em castelhano e em português, em francês e chega-me a escrita de histórias sobre as pessoas e suas emoções. Há algo comum que perpassa a narrativa fantasiosas sobre o quotidiano e o modo intenso que descrevem as fronteiras de relacionamento. Os livros mostram gente educada, mostram pessoas que cometem erros, julgamentos mais pessoais que exteriores, reflexões do eu e suas circunstâncias. Não tenho encontrado a dimensão política, a mensagem do dedo acusador, a violência persistente dos policiais europeus, dos romances onde o pior comportamento humano é empolado. Há nestes textos que vou visitando pessoas más, claro que sim, e há personagens quase diáfanas, mas ou o tom, ou o balanço da escrita não explode. A falar de Alzheimer em “antes que o café arrefeça” chegamos a um momento de tristeza profunda pela inevitabilidade da progressão da doença e os desencontros dela com o amor. É o melhor bocado que me tem chegado da tradução da obra japonesa. Lê-se bem e é suave. O “oitavo dia” foi outra experiência por este modo tranquilo de abordar o comportamento repreensível, a opção infeliz, sempre sem juízo de valor emitido de fora. A reflexão da personagem transporta a crítica e o sentido da moral colectiva.

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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