Há decisões que revelam mais visão estratégica do que muitos discursos sobre coesão territorial. O apoio unânime da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE) à conversão da Universidade Politécnica da Guarda em Universidade é uma delas.
Num interior onde os bairrismos, as rivalidades locais e os pequenos protagonismos tantas vezes se sobrepõem ao interesse coletivo, esta deliberação representa uma demonstração de maturidade institucional e inteligência territorial.
A CIMBSE percebeu aquilo que deveria ser evidente: o desenvolvimento da Guarda não se faz contra os municípios vizinhos, tal como o progresso destes não se constrói à custa da Guarda. Uma região só será competitiva quando compreender que os seus recursos, instituições e oportunidades devem servir o território no seu conjunto.
A transformação da Universidade Politécnica da Guarda em Universidade não é uma questão de prestígio ou de mera alteração de designação. É uma aposta estratégica na qualificação, na investigação, na inovação e na criação de emprego qualificado. É, sobretudo, uma oportunidade para combater a desertificação humana e económica que continua a ameaçar o futuro do interior.
Neste contexto, merece destaque a visão estratégica e o empenho do presidente do Conselho Intermunicipal, Carlos Condesso, na afirmação de uma ambição regional que ultrapassa as fronteiras concelhias.
A unanimidade alcançada demonstra que é possível abandonar a lógica paroquial que tantas vezes tem impedido o interior de ganhar escala, influência e capacidade reivindicativa.
Durante demasiado tempo, desperdiçaram-se energias em disputas estéreis sobre quem ganha mais, quem fica com o quê ou qual o município que conquista maior protagonismo. Essa mentalidade não desenvolve territórios, apenas perpetua fragilidades e alimenta divisões que beneficiam quem decide longe daqui.
O interior não precisa de mais bairrismos disfarçados de defesa dos interesses locais, precisa de lideranças capazes de pensar a região, construir consensos e compreender que o conhecimento, a ciência e a inovação são instrumentos fundamentais de desenvolvimento.
Com esta decisão, a CIMBSE deu um sinal inequívoco de que é possível substituir a competição improdutiva pela cooperação estratégica. Importa agora que esta posição não fique reduzida a uma declaração de boas intenções, o consenso deve transformar-se em capacidade de influência junto do poder central e em resultados concretos.
Porque uma região que se divide enfraquece, uma região que se une ganha voz, dimensão e futuro.
E o futuro das Beiras e Serra da Estrela exige precisamente isto: menos bairrismo, mais território.


