Opinião de Diana Santos: A erosão da cultura na Guarda

Escrito por Diana Santos

A vida cultural de uma comunidade é a sua expressão mais alta de cidadania e de inteligência coletiva. Não existe para ornar o discurso político, nem para funcionar como extensão de quem circunstancialmente detém o poder autárquico. A cultura é, por definição, o domínio do pensamento crítico, da criação desinteressada e do debate plural; e os seus equipamentos – museus, teatros, bibliotecas, centros de estudo – são os guardiões da memória e os laboratórios do futuro. Quando o poder político passa a olhar para as instituições culturais com desconfiança, exigindo-lhes vassalagem ou impondo-lhes uma orientação sufocante, está a degradar a função pública e a trair a própria ideia de comunidade democrática.
Na Guarda, o cenário a que hoje assistimos traduz um desmantelamento preocupante e uma menorização da vida cultural. É doloroso verificar como estruturas centrais do concelho foram votadas ao abandono funcional. O Teatro Municipal da Guarda e o Centro de Estudos Ibéricos encontram-se privados de coordenação artística e de programação continuada e estão a ser transformados em carcaças sem rumo.
A este esvaziamento do Teatro e do CEI soma-se a ingerência sobre o Museu da Guarda, a única instituição que mantinha um funcionamento exigente e rigoroso. O episódio do cancelamento do livro comemorativo dos 50 anos do Poder Local Democrático representa uma violência institucional inaceitável. Convidar meia centena de cidadãos e investigadores a cederem gratuitamente o seu trabalho intelectual, ter a obra concluída, revista e paginada e decidir travá-la à última hora por razões de conveniência política demonstra uma conceção autoritária dos responsáveis autárquicos. A resposta de Thierry Santos, coordenador do Museu da Guarda e da citada obra, foi a única resposta digna perante quem recusa ver o conhecimento e a autonomia técnica subjugados ao arbítrio do poder autárquico. O “esclarecimento” posterior da Câmara, ao alegar a necessidade de incluir mais vozes para justificar o travão editorial, apenas confirmou a incapacidade de compreender o que é a independência da criação cultural e o respeito pela memória plural.
A mesma insensibilidade dita o fim do projeto de Teatro na Escola, dinamizado por Daniel Rocha. Encerrar uma iniciativa pedagógica e artística que, ao longo de três anos, formou públicos, envolveu estudantes e descentralizou o teatro pelas comunidades escolares, invocando pretextos orçamentais sem sustentação, é uma decisão de uma estreiteza lamentável. Enquanto se alega escassez de verbas para o que é feito dentro de portas com mérito reconhecido, anunciam-se compromissos com entidades externas, revelando uma contradição insanável e um desinteresse manifesto pela formação das jovens gerações.
Uma política cultural digna desse nome não se ergue sobre a demissão de técnicos, o cancelamento de edições, o encerramento de projetos escolares e o abandono de teatros e museus. Exige probidade, escuta e o reconhecimento humilde de que a cultura não pertence aos eleitos de turno, mas aos cidadãos. A Guarda necessita de instituições vivas, dirigidas por quem sabe e por quem cria, protegidas de ingerências tacanhas. Defender a autonomia dos seus agentes e a liberdade da sua vida cultural não é uma peleja partidária, é um dever ético de quem recusa ver a sua cidade reduzida ao silêncio e ao definhamento.
Estamos a dar um lamentável exemplo ao país, sobretudo agora, que temos os holofotes da corrida a Capital Portuguesa da Cultura apontados sobre nós.

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Diana Santos

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