A coisa menos interessante deste mundo é mesmo andar de cavalo para burro.
Dizem por aí que, em janeiro, todo o burro é sendeiro para percebermos porque é que os burros usam os célebres óculos de Penafiel, que lhes assentam que nem luvas, sejam eles burros genuínos ou muar, provenientes de algum cruzamento de um burro com uma égua ou de um cavalo com uma burra.
O burro, dotado de inteligência muito acima da média dos outros domésticos, são animais muito pacientes, tipo já chega, a pensar morreu um burro, que na sua astúcia de burro faz o povinho dizer “o melhor mesmo é ter um olho no burro, outro no cigano”… não vá o diabo tecê-las… pois entre a teoria do pão-de-ló (até os burros gostam) e no “conto do burro”, compreendemos o efeito terapêutico para as crianças, interagindo, quando lhes afagam as orelhas (se calhar, foi por isso que o príncipe quis ter orelhas de burro).
Uma das muitas coisas que caiu em desuso foi o burro andar às voltas puxando a nora do poço accionando a engrenagem que eleva a água para a rega das culturas agrícolas e, aí sim, eram-lhe colocadas vendas ou palas para o animal não ter tonturas. As palas (vamos retirar daqui todos os processos médico-oftalmológicos) têm a ver com alguém que vê tudo numa determinada perspectiva e age em função dos seus dogmas.
Aqui chegados temos obrigatoriamente de falar na récua, gerida pelo arrieiro que aproveita o chico-espertismo saloio para falar da burricada que o segue, onde as palas são assessórios obrigatórios, não podem ser retiradas e ai do equus asinus que o faça, pois o desventurado tropeiro quando discute na feira com todos os outros arreadores, sejam eles o Manuel da Graciosa ou o Zé de Mirandela, faz questão de lembrar as palas da sua recova.
Neste lugar-comum e nesta percepção de conceitos abracemos a correlação entre o individuo e o coletivo, onde tantas vezes damos conta da existência da tal bolha ideológica, que, mesmo em contexto de crise, alguns processos culturais (do pensamento à investigação; da filosofia à religião; da arte à política) teimam em recorrer à divisão, à xenofobia, ao racismo e, que nem a tal antropologia consegue explicar.
A globalização trouxe consigo mudanças significativas, em que o eu ou o anti-eu se pode afirmar através da cunha de prestígio, onde do alto da “minha” esfera tudo pode ser considerado subalterno e vazio de conteúdo, carregado de um idealismo de valores e hábitos na criação e produção onde tantas vezes se embarca num esquema algo elitista de sobranceria cultural.
Afinal, quer se goste quer não, a diversidade cultural existe e o multiculturalismo também.
E mesmo com todas estas historietas de burros – vale a pena pensar nisto.


