Opinião de Francisco Manso: O assalto ao BNU na Guarda: Anatomia de um crime de Estado (1920)

Escrito por Francisco Manso

A Guarda sob o signo do espanto

Na aurora da década de 1920, a cidade da Guarda, alcandorada na sua crista de granito, gozava de uma reputação única e dual: era a “Cidade da Saúde”, destino predileto para os convalescentes das doenças pulmonares que procuravam a pureza dos seus ares e, simultaneamente, um centro religioso, administrativo e militar de primeira ordem na Beira Interior. Era um bastião de ordem e tradição.
Contudo, na manhã de terça-feira, 20 de julho de 1920, a pacatez da “cidade mais alta” seria estilhaçada por uma notícia que correria o país via telégrafo: a agência do Banco Nacional Ultramarino (BNU) fora alvo de um assalto sem precedentes na história da criminalidade portuguesa. Este não foi um roubo comum, perpetrado pela força bruta ou pela coação armada. Foi uma operação de “engenharia criminal” tão meticulosa que ficou gravada nos anais da justiça como o roubo das “Notas da Guarda”. O impacto não se limitou ao cofre do banco; abalou os alicerces da economia nacional e forçou o Governo da Primeira República a tomar medidas drásticas que levaram o pânico às ruas de Lisboa e do Porto.

O roubo das “Notas da Guarda”: O Largo Dr. Sobral e a família Mantas

Em 1920, o BNU da Guarda não ocupava as modernas instalações que viria a ter poucos anos mais tarde. Funcionava no Largo Dr. Sobral, um centro nevrálgico da vida citadina, num edifício pertencente à prestigiada família Mantas. Os Mantas eram o epítome da elite guardense da época: influentes, republicanos convictos e detentores de um vasto património imobiliário e político.
O diretor da agência era Júlio Marques das Neves Mantas, uma figura de proa na sociedade local. O facto de o banco estar instalado numa casa de família, integrada na malha urbana e contígua a outros estabelecimentos, conferia-lhe uma aura de segurança doméstica que, ironicamente, provaria ser a sua maior vulnerabilidade. A agência fora inaugurada apenas um ano antes, em 1919, e representava o progresso económico de uma região que tentava modernizar-se e reerguer-se após o trauma da Grande Guerra.

Lá ao fundo, do lado direito, o BNU. Col. Ana Manso

O bando: O “cavalo de Troia” das lãs

O bando responsável pelo assalto não era composto por delinquentes locais de ocasião. Tratava-se de uma rede profissional vinda de Lisboa, encabeçada por figuras como Artur de Oliveira, conhecido no submundo como “Arturzinho”, um mestre arrombador cujas perícias técnicas eram temidas pelas autoridades.
Semanas antes da fatídica madrugada de julho, os criminosos puseram em marcha um plano de infiltração digno de um romance policial. Alugaram uma dependência contígua ao edifício do BNU, alegando que ali iriam estabelecer um negócio de “Comércio de Lãs”. A escolha do ramo de atividade foi um golpe de génio logístico:
1. O isolamento acústico: Os pesados fardos de lã empilhados contra a parede comum serviam como uma barreira fónica perfeita para abafar o som das ferramentas de percussão;
2. A camuflagem do entulho: Os sacos que entravam e saíam, supostamente contendo mercadoria têxtil, transportavam discretamente os pesados detritos de granito retirados da parede;
3. A rotina de trabalho: A movimentação constante de caixas e fardos justificava a presença dos homens no local a qualquer hora, sem levantar suspeitas aos vizinhos.

A execução: o “buraco na parede” e a falha de vigilância
O assalto foi executado entre a noite de 19 de julho e a madrugada de 20 de julho. Enquanto a cidade dormia, e sob o nariz da esquadra da PSP situada a meros 100 metros de distância, os assaltantes operavam com precisão cirúrgica.

Bazar do Povo, futuro BNU. Col. Ana Manso

O método foi o arrombamento por perfuração lateral. Utilizando macacos hidráulicos e ferramentas de precisão, o bando logrou perfurar a espessa parede de pedra que separava a “loja de lãs” da caixa-forte do banco. A ausência de uma vigilância orgânica interna foi o erro fatal da instituição. Naquela época, o BNU da Guarda não dispunha de um guarda noturno permanente no edifício. A segurança dependia exclusivamente das rondas exteriores da polícia.
Os ladrões sabiam que, uma vez dentro da caixa-forte, o tempo estava a seu favor. Trabalharam metodicamente, ignorando os papéis sem valor e focando-se no papel-moeda de alto valor fiduciário. Quando abandonaram o local, deixaram para trás um cenário de desolação: uma brecha na parede de granito e a ausência de centenas de contos em notas novas.

O despertar da cidade e o choque nacional

Na manhã de terça-feira, 20 de julho, os funcionários da agência abriram o banco para o expediente público e o choque foi imediato. Júlio Mantas viu-se subitamente no centro de uma tempestade que ameaçava o seu prestígio e a confiança no sistema bancário regional.
A notícia viajou rapidamente. No dia 21, Lisboa já fervilhava com os detalhes. No dia 22, os grandes jornais estampavam em letras garrafais: “O Sensacional Roubo na Guarda”. A opinião pública, fustigada pela inflação e pela instabilidade política da República, reagiu com uma mistura de espanto e indignação.

A resposta de Lisboa: Uma crise de Estado

Para a Direção-Geral do BNU em Lisboa, o assalto era uma ameaça à integridade da moeda. Como as notas roubadas eram séries novas – as chamadas “notas virgens” – o banco temia a desestabilização do mercado.
A reação foi autoritária e drástica. O Governo emitiu decretos de emergência ordenando a retirada imediata de circulação das notas de 50 escudos (chapa de Camões) e 100 escudos (chapa de Afonso de Albuquerque). Esta medida causou o caos social. Em agosto de 1920, milhares de portugueses viram as suas poupanças tornarem-se papel sem valor de um dia para o outro. Filas intermináveis formaram-se nos bancos para a troca ou carimbagem das notas, gerando motins e um profundo sentimento de injustiça.

BNU, após 1927.

A investigação: A pista da Figueira da Foz

A Polícia de Investigação Criminal (P.I.C.) mobilizou os seus melhores quadros. O bando cometeu dois erros fatais na fuga:
1. As notas “Virgens”: Tentaram introduzir no mercado notas que ainda careciam das assinaturas manuscritas dos administradores, facilitando a sua identificação imediata.
2. A ostentação: Após a divisão do saque, alguns elementos dirigiram-se para a Figueira da Foz, centro de veraneio da elite. Artur de Oliveira e os seus cúmplices começaram a ostentar riqueza em hotéis e cafés de luxo, atraindo a atenção das brigadas da P.I.C. que já patrulhavam as zonas de lazer.

Simultaneamente, em Espanha, a colaboração com as autoridades locais permitiu a detenção de outros cúmplices que tentavam trocar as notas em Salamanca e Madrid, provando a dimensão internacional da rede.

O julgamento e a reabilitação da direção

O processo judicial foi moroso. Artur de Oliveira e Joaquim de Almeida foram capturados e enviados para as cadeias de Lisboa (Limoeiro e Peniche), após um julgamento que expôs as fragilidades da banca nacional.
Quanto a Júlio Marques das Neves Mantas, a sua honra foi totalmente mantida. O inquérito rigoroso do BNU provou que não houve negligência ou conluio interno; os ladrões entraram «pela parede». Contudo, o impacto moral na família Mantas foi indelével. O banco acabaria por mudar de instalações em 1927 para a Rua do Comércio, para um edifício com requisitos modernos de segurança e sem paredes comuns vulneráveis.

Conclusão: O legado do granito furado

O assalto ao BNU da Guarda em 1920 é mais do que uma curiosidade policial; é um espelho da fragilidade institucional da Primeira República. Demonstrou como um crime executado numa cidade do interior podia paralisar a economia de uma nação.
Para a Guarda, ficou a memória de um tempo em que a audácia de uns poucos “negociantes de lãs” pôs em causa a solidez das suas paredes de granito. Hoje, o episódio é recordado como o momento em que a cidade entrou para a história não apenas pelo seu ar puro, mas pela sua involuntária participação numa das maiores crises fiduciárias do século XX português. O “buraco na parede” do Largo Dr. Sobral fechou-se, mas a cicatriz nas notas de 50 e 100 escudos marcou uma geração que aprendeu que a segurança do dinheiro pode ser tão volátil quanto o ar da serra.

Nota final: Porque é que este assalto caiu em esquecimento?
O desaparecimento deste evento da memória coletiva deve-se a vários fatores críticos:
1. O “terramoto” político de 1921: Apenas um ano depois, a Noite Sangrenta (assassinatos de António Granjo e Machado Santos) chocou o país de tal forma que os crimes financeiros passaram para segundo plano;
2. O escândalo de Alves dos Reis (1925): A fraude colossal de Alves dos Reis eclipsou qualquer outro crime bancário na história de Portugal;
3. A identidade da Guarda: A elite local e a cidade preferiram cultivar a imagem de “Cidade-Saúde” e estância segura, silenciando um episódio que expunha vulnerabilidades;
4. A natureza do crime: Por ser um crime “limpo” (sem sangue ou mártires), a sua narrativa perdeu força perante os conflitos sociais e políticos violentos da época;
5. Conveniência institucional: Ao BNU interessava esquecer a falha de segurança; à Guarda interessava esquecer o embaraço social das suas figuras públicas.

O esquecimento das “Notas da Guarda” é, assim, o resultado de uma história filtrada pela violência política e por escândalos ainda maiores que se seguiram.

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Francisco Manso

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