Numa vitória pessoal, António José Seguro foi o grande vencedor das eleições presidenciais. Os portugueses escolheram o humanismo, a moderação e a estabilidade. O candidato que veio do interior, beirão e raiano, conquistou o país.
O militante de base do PS da Guarda que esteve mais de 10 anos afastado dos palcos da política, com civilidade, serenidade e moderação foi conquistando os portugueses, venceu a primeira volta e na segunda foi eleito Presidente da República Portuguesa.
A vitória de Seguro, foi uma vitória do «saber esperar», como notou Ana Sá Lopes, no “Público”, enquanto recordava que, em janeiro de 2020, numa entrevista ao “Jornal do Fundão”, o novo Presidente, pela primeira vez, admitiu um regresso à política. Esse foi um primeiro sinal e, nessa entrevista, Seguro assegurou mesmo que algumas pessoas viam nele um possível «candidato a muita coisa», e que se ele assim o desejasse poderia ser candidato «à Câmara da Guarda, à de Penamacor ou à Presidência da República».
Seguro foi líder da JS, depois foi eleito deputado pela Guarda (e líder da distrital socialista), secretário de Estado e Ministro com António Guterres, seguiu para o parlamento europeu numa lista onde foi segundo de Mário Soares, regressou para ser deputado e líder da bancada socialista, de que se demitiu com a eleição de José Sócrates para secretário geral do PS e primeiro-ministro. Passou a ser oposição interna a Sócrates, até à chegada da Troika quando foi eleito secretário geral do PS (2011). Liderou o partido durante três anos, no difícil período de “resgate externo”, evidenciando sempre uma postura responsável e colocando o interesse de Portugal à frente do interesse partidário. No seio do PS, os “socráticos” odiavam-no e depois foi ostracizado pelos “costistas”, que o levaram a demitir-se no seguimento das eleições europeia de 25 de maio de 2014, quando António Costa atirou que não bastava ao PS «ganhar por poucochinho». Retirou-se. Regressou à academia e graduou-se. Durante os mais de 10 anos de “retiro” da política foi professor na Universidade Autónoma de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Teve tempo para acabar a parte teórica do doutoramento – falta acabar a tese de doutoramento e defendê-la, o que agora deverá ficar em suspenso. Investiu «as poupanças» na sua terra, Penamacor, recuperando quatro casas que transformou em alojamento local. E lançou o seu vinho, o “Serra P” (uma referência à Serra da Pedreira em Penamacor), em homenagem ao seu pai, Domingos Seguro, um DOC da Beira Interior. E passou a ser produtor de azeite na raia beirã, apesar de residir nas Caldas da Rainha.
Antes, na juventude, Seguro foi sempre um jovem interventivo. Em 1977, com 15 anos, ajudou a lançar o projeto do jornal “Verdade de Penamacor”, de que viria a ser editor e diretor em 1980 (quando passou a ser maior de idade). Pouco depois, em abril de 1981, participou no “Iº Encontro de Jornalismo da Beira Interior”, promovido por Hélder Sequeira, na Guarda, onde moderou o debate sobre o futuro editorial da imprensa regional. Foi ali que o conheci, eu era um adolescente à descoberta do mundo e a interpretar a ousadia dos que queriam mudar a região, dos que estavam preocupados com o nosso futuro coletivo. António José Seguro estava lá e, como recordaria nas crónicas que escreveu no “Expresso” e deram corpo ao livro “Compromissos para o Futuro”, «em Penamacor faltava quase tudo (…) o nosso propósito era simples: lutar pelo desenvolvimento da nossa terra e melhorar a vida das pessoas». É esta atitude, esta genuína forma de estar, que esperamos que agora chegue a Belém. Porque António José Seguro é “Um de nós” (do título do livro “António José Seguro – Um de Nós – Sonhar Portugal, Fazer Acontecer”, de Rui Gomes) e todos esperamos que agora não se esqueça de onde vem e para onde queremos ir, para um país uno, coeso e simétrico.
A Câmara da Guarda aprovou uma “Nota de Felicitação” pela relação afetiva e política de Seguro à Guarda. Em breve terá de o distinguir como “cidadão honorário” da cidade
António José Seguro foi eleito por 3.482.481 votos – nunca tantos portugueses elegeram um presidente da República. Depois de Ramalho Eanes, é o segundo beirão eleito Presidente da República por sufrágio universal.


