1. As contas não vivem sozinhas
Os números têm importância e merecem ser conhecidos e compreendidos. Uma autarquia constrói a sua relação com os cidadãos com base na confiança, transparência, disponibilidade e o município da Guarda, dentro dos prazos, tem cumprido estes princípios. A informação agora partilhada sobre a situação económico-financeira da Câmara Municipal aponta para alguns desafios, o que é natural e legítimo que desperte atenção. É fundamental que os dados apresentados sejam lidos com cuidado, acompanhados de explicações claras e uma análise serena, sempre com sentido de responsabilidade. Mas, exigem também enquadramento e honestidade intelectual de todos. As contas públicas não se compreendem como um instante isolado no tempo, são parte de um percurso contínuo, feito de decisões, heranças e contextos que importa considerar na sua totalidade.
Há variáveis que não podem ser ignoradas: competências transferidas para os municípios sem o correspondente reforço financeiro; atualizações salariais legalmente impostas; entrada de novos funcionários, que não deve ser interpretada apenas como despesa líquida, para colmatar os mais de 200 colaboradores que se reformarão nos próximos anos, sendo necessário formar este novo quadro de pessoal; apoio a associações, coletividades, instituições, bombeiros, sapadores; investimentos estruturantes já realizados na cidade, nas freguesias, outros ainda em curso, e não menos importante, verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e Portugal 2030 contratualizadas, mas ainda não reembolsadas, que criam um desencontro temporário entre despesa executada e a receita efetivamente recebida.
Governar não é apenas fechar contas a seis meses. É garantir sustentabilidade sem travar o desenvolvimento. É manter serviços, investimentos e pessoas qualificadas, mesmo quando o contexto nacional e europeu impõe ritmos que não dependem da vontade local. Exigir rigor é justo, mas também é necessário ter presente uma equidade na leitura da realidade, se queremos ter um município moderno e vanguardista.
2. 63 anos do Centro Cultural: uma casa com história e futuro
Antes de mais, os parabéns. O Centro Cultural da Guarda (CCG) celebra 63 anos. Sessenta e três anos de resistência cultural, de serviço público, de encontros, de palco aberto à criação, ao pensamento e à identidade desta cidade. Poucas instituições podem orgulhar-se de atravessar décadas mantendo relevância e missão.
Em tempos de aperto financeiro, há quem olhe para a cultura como despesa adiável. A história demonstra o contrário. O CCG não é e nunca será um custo supérfluo; é um investimento humano, social e económico. É um espaço que forma públicos, cria pertença, atrai pessoas à cidade e dinamiza a economia local, e sai fora de portas a nível nacional e internacional.
A Guarda precisa de se aproximar mais do seu Centro Cultural e no associativismo no geral. Precisa que as pessoas entrem, participem, se associem, critiquem de forma construtiva e se sintam parte. O associativismo não vive de discursos; vive de presença, envolvimento e compromisso. Celebrar os 63 anos do CCG é também reconhecer que não há futuro sem cultura, nem desenvolvimento sem comunidade.
3. 826 anos: uma cidade que resiste porque acredita
A Guarda celebra 826 anos. Não é um número redondo, mas é um número cheio de história. Uma cidade que atravessou séculos de frio, isolamento, partidas e regressos só sobreviveu porque nunca deixou morrer a esperança.
A Guarda continua a ser terra de oportunidades, não apesar das dificuldades, mas muitas vezes por causa delas. Aqui aprende-se cedo a fazer mais com menos, a criar comunidade, a resistir sem perder dignidade. Essa força não pertence apenas a eleitos ou instituições; pertence a todos: comerciantes, empresários, trabalhadores, associações, Igreja, escolas, jovens e idosos.
Independentemente de cargos, partidos ou credos, o que se exige é uma atitude positiva e construtiva. Criticar é fácil; construir é mais difícil, mas infinitamente mais necessário.
4. Comprar cá é um ato político (e de esperança)
Há um gesto simples que tem impacto real na economia local: comprar no comércio da Guarda. Escolher o café do bairro, a loja da cidade em vez da plataforma digital, o produtor local em vez da solução fácil. Cada euro gasto localmente gera emprego, mantém portas abertas, dá vida às ruas e cria receita que volta, em parte, para a própria autarquia. Não é romantismo, é economia básica. Uma cidade viva faz-se de escolhas quotidianas.
Celebrar os 626 anos da Guarda é também isto: assumir que o futuro não se espera, constrói-se. Com contas equilibradas, sim, mas também com pessoas envolvidas, cultura viva e economia local forte. A Guarda não se faz apenas de números nem apenas de discursos. Faz-se de decisões, pequenas e grandes, tomadas todos os dias. E nessas decisões e ações, TODOS contam!


