Escrevo este texto a 11 de Novembro, um dia que tem a particular curiosidade de ter a repetição quase incessante do algarismo 1 (11/11) e de ser o dia dedicado a São Martinho – que é a versão popular do nome beto Martim. Na Europa dos bárbaros este dia costuma assinalar o início das invernias e o fim da estação das colheitas. Em Portugal, aproveitou-se a lenda para justificar mais um dia de comezainas e bebedeiras. A superioridade civilizacional da Europa do Sul não está na tecnologia, está na criatividade com que se encontram razões para comer, beber e celebrar – e, como já os gregos antigos sabiam, na posse da azeitona.
São Martinho ficou célebre por ter cortado a sua capa a meio para proteger do frio um desgraçado que encontrou ao relento invernal. À noite, este Martim disse que sonhou com Jesus Cristo envergando meia capa e tornou-se santo. Isto mostra apenas que no século IV a Igreja estava desesperada por santificar qualquer pessoa. Se oferecer roupa e ter sonhos esquisitos fosse motivo de santificação, não haveria almas pecaminosas no mundo.
Segundo as fontes que consultei em arquivos esconsos – a Wikipedia e um dicionário litúrgico online – a numerologia da data, a tetralogia do 1, talvez não tenha qualquer relação com a festividade religiosa, o que me deixa triste e sem assunto para preencher uma página inteira do jornal.
É o único dia do ano em que a data é assinalada pela repetição quaternária de um algarismo. Não há 00/00 nem 22/22. Espanta-me como é que ninguém reparou nisto para desencantar mais um feriado, ou como é que as edições dos canais de notícias não estão cheias de numerólogos a explicar que é um número celestial e que favorece um sem número de coisas importantes. Historicamente, foi até este o dia escolhido para terminar a Primeira Guerra Mundial – às 11 horas de Paris, para dar mais motivos de conversa aos maluquinhos dos algarismos.
Segundo as mesmas fontes – umas pesquisas no motor de busca da Internet – 1111 representa um despertar espiritual e recomeços, num caminho de autodescoberta e crescimento. Com certeza, após meio quilo de castanhas e um jarro de jeropiga, não há espírito que se mantenha adormecido ou barriga que não cresça. E quando se autodescobre que se está perdido no caminho, a solução é pedir ao GPS que recomece o trajecto de regresso a casa. Afinal, isto anda mesmo tudo ligado.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


