Opinião de Fidélia Pissarra: Guarda: a cidade mais monárquica da República Portuguesa

Escrito por Fidélia Pissarra

À falta de outras informações, presume-se que o que os terá juntado fossem algumas vicissitudes e umas quantas diatribes partidárias. Mas também há quem diga que talvez tenha sido o destino. Fosse como fosse, com tanto em comum, não tinham como não coincidir no encontro que os juntou. O primeiro dizia ser o mais rico da sua aldeia, onde ninguém, antes ou depois dele, chegaria tão longe como ele haveria de chegar. O segundo dizia-se o mais inimputável do seu bairro. O terceiro dizia-se o mais esperto da sua rua. Daí que não admire a ninguém que, entre um copo de vinho e uma febra de porco, se tenham lembrado de desatar a rememorar tempos idos. «Em cada Freguesia havia um regedor e um substituto deste, ambos nomeados pelo Presidente da Câmara Municipal e por ele livremente demitidos», declarou o mais velho dos três.
A seguir desataram a perorar sobre a Revolução e as caraterísticas das rejuvenescidas elites locais que a dita acarretou. Como não podia deixar de ser, notaram que tais elites, ao contrário das anteriores, tinham deixado de usar chapéu e roupa a tresandar a velha. O que fazia com que, perante as autoridades – mais autoridades do que eles, evidentemente – já não precisassem de destapar a cabeça. Nunca mais as apanharam de chapéu na mão perante ninguém. Claro que os que desde pequeninos ambicionavam receber as mesmas vénias que o regedor lá da aldeia fazia ao presidente da Câmara é que não acharam grande piada à coisa. Assim como assim, sem manifestações de subserviência, nem se é autoridade, nem se é nada. «Não pode ser», remataram.
«Há que voltar a pôr tudo no lugar», repetia volta e meia a serôdia trindade às voltas com o problema com que decidiram debater-se. Depois de muito pensarem, acabaram por chegar à conclusão de que o progresso, o desenvolvimento, empresas que pagassem decentemente, aqui, não lhes eram convenientes. Havendo muitas oportunidades, haveria muitas pessoas. Havendo muitas pessoas, seria mais provável aparecer alguém mais rico, mais inimputável e mais esperto do que qualquer um deles. Mesmo que não aparecesse, podendo trabalhar numa empresa ou para uma empresa, deixava de haver quem precisasse dos seus jeitos e favores. «Não pode ser», repetiram, antes de prosseguir na senda do “volta à trás”.
Contudo, qualquer autarca pequenino, com sonhos e ambições de pequenino, por mais pequenino que seja, sabe que nem só de pão vive o homem. Para a desertificação, desconfia-se que intencional, do território não dar muito nas vistas, tem de arranjar umas distrações à altura e distribuir também umas tenças e comendas, à boa maneira monárquica, que, por mais pífias que sejam, sempre contribuem para arregimentar até os mais empedernidos antigos opositores. Ao fim e ao cabo, ninguém resiste a uma homenagem, a um lugar ou contrato com a administração para si próprio ou para um familiar, a um destaque de rodapé. E ninguém lhes poderá levar a mal por isso. Aos candidatos que assim se fazem eleger, entenda-se. Porque, na impossibilidade de se conseguir que ouçam e vejam bem o que aplaudem, não se conhece outra maneira de pôr os eleitores a concordar e a defender o que quer que seja. Incluindo o regresso da monarquia.

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Fidélia Pissarra

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