Conheci o João Clemente ainda muito novo. Apresentaram-mo como “o Papa”. Perguntei porquê. Responderam com um encolher de ombros. Ninguém sabia explicar. Hoje, passados anos e distâncias, continuo sem uma explicação racional, mas tenho a certeza absoluta de que o título está certo.
Há pessoas que se impõem com a força da palavra, outras com o volume. O João faz-se notar pelo contrário: é no silêncio entre notas, nas pausas carregadas de intenção, que se instala. E transforma. Conversar com ele, ou melhor, escutá-lo, é ser obrigado a ouvir antes de responder, a sentir antes de entender. A música, para ele, não é um fim. É o meio. E é, talvez, o melhor que temos.
Começou na bateria, passou pela guitarra, multiplicou-se em projetos e hoje é impossível seguir-lhe o rasto sem cair num buraco negro de criatividade. É o criador do coletivo Profound Whatever, um nome que, se fosse apenas um título, já valeria a pena. Mas não é. É, como escreveu Vítor Rua, “um ecossistema criativo em permanente ebulição, um espaço onde a experimentação sonora se encontra com a liberdade absoluta da improvisação”. E essa definição não é exagero.
Ouvi-o ao vivo em várias formas: Cat in a Bag, TRIZ & Blue Velvet, Slow Is Possible. Todos diferentes, todos radicais no melhor sentido do termo. João não toca para entreter. Toca para convocar. Para nos lembrar que há outros modos de escutar. Fico, muitas vezes, a pensar como é possível que esta música não esteja a correr o mundo. E ao mesmo tempo, sou grato por estar aqui (mesmo que não fisicamente), tão perto da sua origem. Do Pesinho (Fundão), para sermos exatos.
Depois de alguns anos a viver em Berlim, onde colaborou com músicos e continuou a aprofundar o seu trabalho exploratório, o João voltou às raízes. Hoje, está de novo radicalizado no Pesinho, como se soubesse que a força do que cria está ligada à terra onde nasceu. Não se trata de regressar. Trata-se de plantar.
Através do seu Bandcamp, profoundwhateverdir.bandcamp.com, tenho seguido o seu percurso. Um dos discos que não me sai dos ouvidos é CRIVO, que gravou com o professor Nuno Santos Dias. É música para ouvir de olhos fechados e pulmões abertos.
Todos os anos, o João dá ainda mais algo à região como se fosse um ritual. O Festival Profound Whatever, que transforma a Moagem do Fundão num templo sonoro durante três dias. Lá, músicos e ouvintes encontram-se num terreno neutro onde tudo pode acontecer. E acontece. Se ainda não foram, vão. Leve-se espírito aberto e deixe o ego à porta.
Já não vejo o João há demasiado tempo. Mas a sua música mantém-se como uma linha direta entre a serra e o mundo. Porque há artistas que pertencem ao planeta, e o João é um deles. Só que teve a gentileza de nascer aqui.
Obrigado, João!
Docs de apoio:
Harmonia das Raízes e Horizontes: A Odisseia Musical de João Clemente – Vítor Rua (Ritmos e Batidas – 25/02/2025)
Websites: https://www.rimasebatidas.pt/harmonia-das-raizes-e-horizontes-a-odisseia-musical-de-joao-clemente/
https://profoundwhateverdir.bandcamp.com/
Sugestões deste mês:
Intelligentia Liquida de Ilda Teresa Castro – https://profoundwhateverdir.bandcamp.com/album/intelligentia-liquida
Série Lume de Giselle Llanio e Sérgio Graciano, disponível, com livre acesso, na RTP Play.
setembro, 2025 Romeu Curto


