Feirar ou fritar – A feira de antiguidades merece melhor cenário

A Feira de Antiguidades da Guarda realiza-se entre a Primavera e o Verão, nos primeiros domingos de cada mês, na Praça Luís de Camões. Este tipo de evento oferece a oportunidade para passear, descobrir e apreciar objetos do passado que ainda fazem sentido no presente – seja em termos de decoração (interior ou exterior), literatura, música ou quaisquer outras categorias. Objetos que, para muitos, são relíquias ou reencontros com a memória, para outros curiosidades que podem vir a fazer um sentido estético ou prático nos dias de hoje. A feira tem uma harmonia visual acolhedora e atrai, em geral, um público mais adulto e, arriscaria dizer, mais exigente e curioso.
Diz-se que alguém “feirou” quando regressa a casa com qualquer coisa; um prato antigo, um disco de vinil, um funil agrícola, uma edição rara de um livro, um rádio de válvulas, uma balança de pesos ou qualquer outra coisa. Basta uma compra para se ter “feirado”.
Embora seja uma atividade que costumo fazer noutros locais e noutros países, por diversas razões, não tinha tido oportunidade de visitar esta feira, assim, no primeiro domingo deste mês consegui finalmente estar presente. Contudo, aquilo que esperava ser uma experiência agradável e mundana transformou-se, infelizmente, num quase sacrifício e, continuando assim, não meto lá mais os pés! Não…, o problema não residia no evento em si, nem nas pessoas que o tornam possível, mas sim no local onde decorre.
Salvo erro, em finais dos anos 40, em supostas obras de intervenção à la Estado Novo, foi decidido remover todas as árvores, bancos e coreto da praça, (vide fotos antigas) para colocar a estátua de D. Sancho I. Recentemente, decidiu-se mover essa peça de estatuária pública do centro para uma posição mais elevada e próxima da Sé Catedral. Embora na altura tenha havido contestação, confesso que, no presente, não me parece estar num “mau sítio”. A questão prende-se no seguinte: toda a área foi substituída por lajes de pedra cinzenta com nenhuma sombra natural. O resultado? A criação de uma verdadeira “frigideira” urbana no centro da cidade. No Verão, o calor acumulado e refletido pelas lajes torna esta praça num espaço impróprio para a convivência social e civilizada ao ar livre. Incrivelmente, é ali que se realiza esta feira e é de ficar com pena dos feirantes e visitantes que fritam, qual picanha em pedra quente.
De modo a não entrar em grandes dissertações ou juízos de valor, deixo duas sugestões ao município:
– Transferir a Feira de Antiguidades, já para o ano de 2026, para o Parque da Cidade – um espaço verde, fresco e adequado para acolher este tipo de evento social/cultural. Convidativo a visitas repetidas, conviviais e demoradas. Todos certamente agradecem.
– Requalificar a Praça Luís de Camões, através da plantação de árvores de sombra generosa, como tílias, faias, carvalhos ou castanheiros, para devolver à praça a sua função de espaço público de confraternização educada e polida.

Feirar ou fritar? A resposta parece óbvia tanto para feirantes, como para visitantes: o património urbano, os munícipes da Guarda e quem nos visita merecem melhor local para a Feira de Antiguidades… Ou qualquer evento que se realize no Verão e durante o dia… deixem a picanha na pedra para os restaurantes!

Sobre o autor

Filipe Conceição Silva

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