Um país com menos de dez milhões de habitantes deixou boa parte do mundo em suspenso até ao último domingo. O vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, veio a um comício em Budapeste e colocou Trump em directo para se dirigir aos adeptos de Orbán. Na televisão portuguesa foi amplamente discutida, nos múltiplos espaços de opinião que agora preenchem a grelha, a eleição e as suas implicações. Na defesa de Orbán aparecia alguém do Chega, à falta de quem quisesse ocupar o lugar. Recorde-se que quando o Fidesz, agora derrotado nas eleições húngaras, quis criar um grupo parlamentar no Parlamento Europeu que reunisse partidos populistas de extrema-direita, o Patriots EU, teve o Chega como um dos primeiros a aderir.
O que têm de especial o Fidesz e Orbán? São pró-russos e contra a União Europeia, que lhes interessava, quando no poder, apenas como fonte de receitas (a Hungria, com 4,3 mil milhões de euros, é um dos maiores beneficiários líquidos das transferências da União), são contra a NATO e contra a Ucrânia, são também contra a liberdade de imprensa e de opinião, são contra a separação de poderes e a independência da justiça, são, no fundo, contra as regras básicas da democracia. Transformaram a Hungria no país mais corrupto da União Europeia. Também é o pior governado, já que a Hungria, sob o comando de Orbán, aparece mal na maior parte dos indicadores, da mortalidade infantil ao crescimento económico, da esperança média de vida ao PIB per capita. É um dos países com pior nível de vida na União Europeia e está abaixo de Portugal em praticamente todos os indicadores relevantes.
Há dias, Carlos Chaves Monteiro foi notícia no “Observador” por, em data em que recebia subsídio de desemprego, ter subscrito como advogado um requerimento enviado por email à administração da ULS da Guarda. Tal era pretexto de notícia por Chaves Monteiro estar indicado para diretor distrital da Segurança Social. Insurgia-se entretanto o Chega no Facebook, em post de 6 de abril, por a notícia não indicar no título que ele era um autarca do PSD. Segundo esse post, o jornalismo continua a ser amigo do “sistema”. Carlos Monteiro esclareceu já que nada recebeu pelo tal email e que o enviou apenas para ajudar um amigo, sem retribuição pelo trabalho, mas de nada lhe serve: nesse email, para o Chega e para quem não o quer naquele lugar, cabem todos os pecados do mundo – e sempre sem direito a contraditório.
Fui por curiosidade ver a página do Conselho de Jurisdição Nacional do Chega e a sua prática disciplinar. Descobri, por exemplo, que o militante Ivo Ferreira Faria, candidato nas últimas autárquicas a uma freguesia de Fafe, foi detido pela Polícia Judiciária em 21 de março passado, um sábado, por suspeitas de abuso sexual contra uma filha menor. No dia 23 de março, na segunda-feira seguinte, o Conselho de Jurisdição Nacional do Chega decidiu pela sua expulsão. Em início de setembro de 2025, era detido em flagrante delito de fogo posto outro militante do Chega, Marco Paulo Balancho da Silva. Foi expulso no mesmo dia em que a notícia foi dada pelo canal de televisão NOW. Só fica bem ao Chega ser intransigente contra pedófilos e incendiários, mas há uma questão que me incomoda: se até os pides tiveram direito a defesa, porque não o têm os muitos militantes do Chega apanhados com a boca na botija? Outra coisa: a comunicação social, tanto tem credibilidade suficiente para permitir expulsões sem julgamento, como não tem nenhuma ao dar notícias de forma que não lhes interessa. A corrupção, bandeira eleitoral em Portugal, é ignorada quando atinge amigos e aliados.
Mas fiquemo-nos pelas boas notícias: Orbán era um risco para toda a União Europeia e um traidor dos seus princípios. A sua queda é um óptimo prenúncio da decadência dos populistas pelo mundo fora, mas é também um bom exemplo de que a extrema-direita nada tem a oferecer de bom.
António Ferreira



