Celebrar 26 anos de existência de um jornal no Interior do país não é apenas um ato festivo; é um ato de resistência. Ao jornal O INTERIOR e a todos os que semanalmente teimam em fazer chegar a verdade às nossas casas, o meu reconhecimento público. Numa era de volatilidade, manter uma porta aberta na Guarda durante mais de um quarto de século é, por si só, uma Vitória sobre a Coesão Territorial. Vivemos tempos decisivos. Ainda recentemente, o nosso território estremeceu com a ameaça, felizmente não concretizada, mas sintomática, da VASP deixar de distribuir publicações em zonas de baixa densidade. O simples facto de essa hipótese ter estado em cima da mesa é um agudo alerta. Revela como o país centralista nos vê: como números sem alma numa folha de cálculo, onde a rentabilidade logística se tenta sobrepor ao direito constitucional à informação. A Guarda não aceita ser “paisagem” estatística. Se o correio não chega, se o jornal não chega, a democracia adoece. A interioridade não pode ser também um sinónimo de isolamento informativo. Porque, caros amigos, o que está em jogo é muito mais do que papel e tinta. É a nossa soberania e independência intelectual. Assistimos, com preocupação crescente, a uma substituição perigosa. Os livros e os jornais, revistos por editores e sujeitos ao contraditório, estão a ceder lugar à ditadura dos algoritmos e da IA. Nas redes sociais, não somos cidadãos; somos produtos. Onde antes havia formação de opinião crítica, hoje há a polarização do “gosto” e do “partilho”. Onde antes havia factos apurados, hoje reina a “fake news”, desenhada para incendiar ânimos ávidos de populismo e não para esclarecer mentes. Um motor de busca não tem ética; tem interesses comerciais. Um algoritmo não conhece a “Ti Joaquina” nem as dores das nossas freguesias e cidadãos; conhece apenas o que gera mais cliques através das mais variadas indignações e da exaltação de sentimentos mais ou menos cruentos. Por isso, a imprensa regional é um dos nossos escudos morais. É ela que, com independência, escrutina o poder local com proximidade, que discute a verdade e que deve construir a confiança necessária entre eleitos e eleitores sem influências políticas ou económicas. Sem jornalismo local forte, ficamos à mercê da desinformação global e do boato de café digital. O combate pela coesão territorial faz-se também aqui. Exigimos estradas, saúde e desenvolvimento, sim, mas exigimos igualmente o acesso à cultura e ao pensamento livre. Ler um jornal regional é um ato de cidadania. É dizer “eu importo-me com o que se passa aqui”. Que estes 26 anos sejam apenas o início de um novo ciclo de robustez. Porque enquanto houver quem escreva sobre a Guarda com verdade, haverá quem lute pela Guarda com esperança. A Guarda não pede favores, exige respeito, e exige o direito a estar informada.
* Presidente da Câmara Municipal da Guarda



