Há silêncios que pesam mais do que mil discursos. Sérgio Costa não apresentou as contas intercalares do primeiro semestre de 2025, apesar da lei ser clara quanto a essa obrigação. Num ano de eleições autárquicas, esta omissão não é apenas um lapso administrativo ou um esquecimento menor. É um acto político pouco inocente. É um acto político que levanta suspeitas cada vez mais difíceis de contornar. Se as contas estivessem em ordem, por que razão não foram apresentadas? Se não há nada a esconder, porque não cumpre o presidente aquilo que a lei determina? O que está por detrás deste silêncio? São dúvidas legítimas e inevitáveis que se instalam na opinião pública.
A ausência de contas torna-se ainda mais perturbadora quando se olha para o espetáculo montado nas ruas da cidade. “Outdoors” em cada esquina, cartazes gigantes, revistas luxuosas de propaganda e uma profusão de material de campanha raramente vista. Tudo isto vindo de uma coligação sustentada por dois partidos diminutos, sem músculo financeiro conhecido, incapazes de suportar uma campanha de tal envergadura. Como conseguem financiar tamanha máquina propagandística? Estaremos perante um caso clássico de promiscuidade entre os cofres municipais e a máquina eleitoral? É uma pergunta legítima, que só ganha força diante da recusa em mostrar as contas intercalares.
Mas o enredo não fica por aqui. Como se não bastasse, a “meia dúzia” de dias das eleições, Sérgio Costa ainda quis avançar com um empréstimo de cerca de 12 milhões de euros. Uma decisão pesada, com impacto profundo no futuro financeiro da autarquia, que deveria caber ao próximo executivo, legitimado pelo voto popular. Em boa hora, o ponto foi retirado da última reunião de Câmara, adiando a decisão para quem de facto vier a governar. Mas a simples tentativa revela a tentação de gastar sem limites, de empurrar responsabilidades para o futuro, de comprometer gerações vindouras para sustentar opções políticas de curto prazo.
As três peças encaixam-se como num puzzle sombrio, ou seja, contas que não aparecem, campanha de luxo sem explicação e um empréstimo milionário apresentado em fim de mandato. Nada disto é coincidência. É escolha. Sérgio Costa escolheu a opacidade em vez da transparência, a propaganda em vez da seriedade, o endividamento em vez da responsabilidade. É o retrato de um presidente que já não governa para a Guarda, governa contra a Guarda. E a pior herança que pode deixar não é a dívida financeira, mas sim a erosão da confiança dos cidadãos na política.
E talvez, quem sabe, se algum dia decidirem lançar o Prémio Nobel da Opacidade e da Intrujice, Sérgio Costa terá um lugar assegurado no pódio. Não pelo mérito de grandes obras, mas pela mestria em esconder contas, inflacionar propaganda e tentar endividar uma cidade inteira à pressa. Uma distinção ingrata, é certo, mas pelo menos essa não seria atribuída no recato!
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos



