Já não nos bastavam as calamidades destruidoras, as amarguras de uma vida sem futuro e sem justiça, o trabalho com salário que não dá nem para acender uma candeia e ainda menos para uma habitação condigna, as reformas indignas, a educação que não liberta nem ajuda um povo a sair da miséria. Eis que surge um estudo sobre o estado da saúde em Portugal que só confirma o que, pelo menos os mais atentos, já conheciam – mais uma desgraça a juntar a tantas outras.
O barómetro anual do estado de saúde em Portugal relativo ao ano de 2025 tem por base as queixas dos utentes de serviços de saúde no Portal da Queixa. No total, o Portal da Queixa recebeu 5.446 reclamações sobre saúde em 2025, um aumento de 2% face ao ano anterior. No entanto, números à parte, a análise às queixas expõe uma realidade “alarmante” de “normalização” do estado de crise.
O setor privado é o que apresenta maior número de queixas, a saber 72%. No entanto, mesmo que o grau de insatisfação com o setor público seja menor em 28%, a gravidade das denúncias aumentou «exponencialmente», com foco em questões «de vida ou morte, dignidade humana e acesso básico a cuidados». Na leitura deste barómetro, o sistema «operou consistentemente nos limites da sua capacidade, gerando níveis de fricção sem precedentes entre prestadores e cidadãos», um «descontentamento que atravessa transversalmente o setor público, privado e social».
Para lá dos números, o estudo denota que o ano ficou marcado por uma “tempestade perfeita”, desde a implementação das novas Unidades Locais de Saúde, greves de médicos e enfermeiros, o confronto entre grandes grupos de saúde privados e a ADSE, e ainda «falhas catastróficas em infraestruturas críticas». «O utente de 2025 é um cidadão exausto», conclui o documento, lembrando os encerramentos das urgências de obstetrícia «rotativas e imprevisíveis», ou ainda os tempos de espera «públicos» no setor privado.
«A perceção dominante é a de um sistema fragmentado onde a continuidade dos cuidados foi sacrificada em prol da gestão de contingências diárias», afirmando-se que os números elevados de reclamações demonstram que os problemas são «estruturais». Sobre o SNS, o barómetro diz que é «um gigante em sofrimento», num cenário de «degradação humana e técnica», onde a principal falha apontada é a da falta de qualidade do atendimento. Grande parte das reclamações do setor público é referente ao terceiro trimestre do ano, ou seja, aos meses de julho, agosto e setembro, referentes nomeadamente à especialidade de Obstetrícia, com grávidas «forçadas a “peregrinações” entre hospitais». O barómetro lembra os casos de partos em ambulâncias ou mesmo na via pública que, ao serem «amplamente mediatizados», geraram «um sentimento de insegurança profundo».
Por outro lado, este relatório vê um «mecanismo do caos» na análise ao trabalho da Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde, por ter mantido a «política de encerramentos rotativos», com vários fins-de-semana críticos de agosto com urgências «simultaneamente» encerradas na especialidade de Ginecologia/Obstetrícia nas mesmas áreas geográficas.
Já no setor privado, para além das questões clínicas, destacam-se também as queixas administrativas e financeiras, com «faturas surpresa», «copagamentos inesperados» ou «recusas de cobertura». A situação foi particularmente difícil, ou mesmo de «“guerra” aberta» entre a ADSE e os grandes grupos de saúde privados. Em julho último, a Autoridade da Concorrência acusou estes grupos privados de «práticas restritivas da concorrência», nomeadamente com «concertação de preços e de posições negociais». O barómetro com base nas queixas dos utentes foca-se também na saturação das urgências no privado, sobretudo nos períodos em que o SNS «colapsou», ou seja, na semana de Natal e Ano Novo e durante o verão.
O estudo conclui que o principal desafio para a Saúde em 2026 será o de «reconstrução de confiança» com o sistema a «garantir previsibilidade», numa altura em que, estando o ano no início, já se sabe que há hospitais sem verbas para adquirir medicamentos e outros materiais de consumo, e que milhões de exames pedidos por médicos de família não estão a ser realizados pela recusa de unidades convencionadas. Mais uma catástrofe a juntar a tantas outras! Quo Vadis Portugal?


