Opinião de Fidélia Pissarra:A Reforma do Estado

Escrito por Fidélia Pissarra

Cumprindo o prometido, o governo, muito diligentemente ou nem por isso, criou um Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado. O que, mesmo sabendo que para esta Direita, sempre a tender para a Direita de si própria, “reforma do Estado” será um mero eufemismo para retirar ao Estado serviços (Educação, Saúde e, a seu tempo, sustentada na lengalenga da falência a médio prazo, a Segurança Social) que os aspirantes a donos disto tudo há muito namoram, não admirará a ninguém. Que não se tenham poupado a esforços para designar alguém, em comissão de serviço em regime de exclusividade, como consultor coordenador que, de preferência, tenha frequentado escolas que encaram o Estado como o bandido que impede a libertação das forças produtivas que a sociedade contém, também não. Quando muito, poderia espantar-nos que, provavelmente depois de muito procurarem, para os ministros de Estado e das Finanças, da Presidência e ministro-adjunto e da Reforma do Estado a pessoa certa, Frederico Bartolomeu Rebelo de Andrade Perestrelo Pinto, seja um jovem de apenas 25 anos. Mas nem isso nos espanta.
Primeiro porque não temos qualquer preconceito quanto à curtíssima experiência profissional do jovem, depois porque foi formado pela Università Commerciale Luigi Bocconi e, ainda por cima, na Nova School of Business and Economics. O que, para questões de Estado e da sua “reforma”, bastará para não nos espantar. Até porque achar que o Estado não é um negócio é muito “classe média” e nós há muito que somos, ou assim julgamos, mais “classe alta”. Daquela que acha que já tem direito às mordomias do privado pagas com o dinheiro do Estado que se quer reformar.
Ironias à parte, claro que está tudo errado nesta designação, mas o que nela mais nos indignará será o que menos importa. Esta nomeação, além do lastro de nepotismo, tem o da “compadrice” até certo ponto inevitável. É consequência da compressão do recrutamento dos atores políticos para uma mistura de filiados partidários e redes familiares. O mais errado, porém, não é que se premeie um garoto, quase imberbe e sem currículo, tornando-o consultor-coordenador de um Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado. O mais errado será mesmo a própria noção de “reforma o Estado” que o governo, com apoio dos partidos à sua Direita, tão determinadamente assume. Dado que ao acalentar perversamente a ideia de que o Estado está minado pela corrupção e relações clientelares praticamente neutraliza a evidência, agora clara, de que o partido mais corrupto, nepotista e clientelar é precisamente o que se assume “antissistema”.
Esmagada por esta narrativa do “emagrecer o Estado”, “acabar com o desperdício no Estado”, “pôr ordem no Estado”, a luta política atém-se no acessório e acaba por contribuir mais para a regressão de direitos do que, como seria de supor, para promover o progresso e o humanismo. Daí que um dos maiores desafios do novo Presidente talvez seja mesmo o de contribuir para elevar o debate político, a libertá-lo do que é supérfluo e rever as atuais prioridades da Direita, que tão mal influenciada pelos liberais e extrema-direita tem andado.

Sobre o autor

Fidélia Pissarra

Deixe comentário