Depois de passar os olhos pelas páginas de meia dúzia dos romances mais frescos e dois ou três já meio passados do panorama nacional, dei em lembrar-me das duas raparigas chinesas que passaram uns bons três meses no mesmo apartamento da Henrique Seco, em Coimbra, em que, no início da década de oitenta do século passado, vivia uma colega. Desde logo porque as boas das chinesas, à semelhança dos autores que folheei, se desfaziam em sorrisos que mesmo sem chegarem a cair-nos mal eram completamente nebulosos. Depois porque aos nossos olhos, tão descaradamente pouco viajados e incultos, exibiam bizarrices como aquelas de se fotografarem junto aos jazigos do cemitério da Conchada ou encostadas ao frigorífico da cozinha lá de casa. Ou seja, tal como as páginas dos autores da moda que percorri, tudo coisas nunca vistas, já se vê, por quem só tinha saído do continente – em boa verdade, do grupo restrito em que crescera – através dos livros que, para início e fim de conversa, nunca falavam dos hábitos de higiene das pessoas que nos descreviam e dos filmes que chegavam da América.
O que me deixou a pensar se não será para evitar coisas destas que muitos dos atuais autores, a que só agora me deu para chegar, tenham desatado a socorrer-se dos telemóveis, “laptops” e afins, para iniciar a exposição da maioria das suas cenas. “Inácia pousou o telemóvel e… “ “Inácia pegou no telemóvel e…” “ Inácio abriu o laptop e… “ “Inácio fechou o laptop e…” Claro que, se aos autores a que me costumava abeirar tivesse dado para começar a descrever a ação começando por “Inácia passou a esponja pelo corpo sob o duche e…” “Inácia passou uma mão cheia de champô pelo cabelo e…”, talvez me tivesse dado para pesquisar se todas as Inácias desta vida se lavariam assim. Pelo menos teria concluído que as chinesas, no que ao banho diz respeito, talvez não fossem bem como as portuguesas. Não que isso, no curto e escorreito convívio que tive com aquelas duas, tivesse feito grande diferença, mas sempre tinha evitado que me sentisse tão perplexa e burra como, na altura, acabei por sentir. Para além de que, em vez de terem relatado cenas que eu, por as ter vivido na pele, entendesse e continuasse a replicar, só lhes deu para me mostrar cenários, por vezes, quase herméticos, dos que nunca passaria pela cabeça de ninguém que pudessem ter acontecido e deixavam toda a gente a pensar no assunto.
Ora se agora não fica quase esclarecida a razão para enredos daqueles, dos que expõem a grandeza das artimanhas da alma, ao contrário da maioria dos atuais campeões de vendas (a maioria da mesma laia da Corin Tellado, ainda que mais premiado e reconhecido pelas supostas elites), nunca terem granjeado grandes clientelas, também não sei quando ficará. Até porque, aparentemente, nada se comparará ao pequeno prazer masoquista dos arrivistas encantados com o que de si conseguem extrair das páginas que lêem. Claro que depois também ninguém se poderá admirar da crescente degradação da cultura e das suas intragáveis consequências: o recrudescer das clivagens sociais, através de atos de violência, principalmente contra os grupos mais vulneráveis, legitimados por discursos bafientos suficientemente disfarçados para passarem por imperativos de empatia e moralidade.
Mas isso serão outros quinhentos para que já não há linhas.



