Numa avalanche de acontecimentos que nos provam que o mundo está insano e Portugal não é exceção, torna-se difícil selecionar um só tema para reflexão. Os tempos estão a mudar, agora o mal parece triunfar e cresce o desejo de tantos pela implosão da humanidade. A responsabilidade social foi substituída pela desonestidade intelectual e os piratas erguem as suas bandeiras e dominam os mares do abismo. Vejamos alguns dos últimos fenómenos que, com tamanho engenho e arte, conseguimos erigir:
1 – Compactuar com guerra de Trump. O uso da Base das Lajes pelos EUA revela a incapacidade do atual Governo para qualquer situação que dependa de uma posição assertiva. Primeiro, parecem desconhecer os Acordos que nos regem, nomeadamente o Acordo de Cooperação e Defesa de 1995 que define que a utilização desta base militar carece de uma autorização prévia de Portugal, fora do âmbito da NATO. No entanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ignora este Acordo, desrespeitando a nossa dignidade institucional e soberana enquanto Estado e aniquilando a nossa posição negocial, dizendo que a autorização é «tácita». Portugal aceita, assim, ser cúmplice de Trump, porque não tem líderes com coragem, como acontece em Espanha ou na Itália, e é assim submisso ao mais forte, mesmo que o mais forte seja um louco.
2 – Revisão constitucional antes da mudança de Regime. Celebraram-se 50 anos, no passado dia 2 de fevereiro, da aprovação da Constituição da República Portuguesa, um marco fundador da democracia que consagrou, pela primeira vez, o princípio da igualdade e os direitos fundamentais de todas as pessoas. Este é o documento mais importante que Portugal tem, enquanto povo livre. Um «pacto solene de futuro» que se mantém e manterá atual na construção e na defesa do nosso chão comum. Porém, há quem não suporte a liberdade, esses mesmos que agora pedem, com carácter de urgência, uma revisão constitucional como se a Constituição fosse causadora dos males do país. Provavelmente nunca a leram e querem destruí-la ou moldá-la a seu gosto, porque o objetivo final é – e só não ver quem não quer – provocar o caos e acabar com o Estado Democrático. A liberdade, semente do bem, provoca-lhes alergias.
3 – A vaidade perdeu a noção. Há uns tempos, em pleno estado de calamidade, o ministro Leitão Amaro publicou nas suas redes sociais um vídeo autopromocional onde aparecia a roer as unhas, simulando ligações telefónicas, para dar a perceção de que estava muito atarefado nos seus afazeres, tendo até – qual rasgo de marketing – as mangas da sua imaculada camisa branca arregaçadas. O vídeo foi tão mal recebido por um país que enfrentava a maior tempestade dos últimos tempos que o senhor Leitão Amaro lá decidiu retirá-lo, dizendo que foi mal interpretado. Agora, no mesmo dia que as autoridades de segurança divulgam o número de vítimas mortais nas estradas portuguesas, apelando à prudência dos condutores, é publicado mais um vídeo viral por este Governo, desta vez com Luís Montenegro como protagonista, dentro de um carro em andamento, onde nem ele nem o condutor do veículo trazem cinto de segurança. A falta de noção do mundo circundante e da responsabilidade política são assustadoras. A vaidade tem limites e a noção do real deveria ser um deles.
4 – A nível local, a inveja e maldade do costume. Quem disser que a Guarda não serve para nada está enganado. Serve para produtivo caso de estudo da inveja e mesquinhez. Maquiavel é guia supremo das alminhas deste burgo. Cidade de inimigos, povoada de rancores, ódios e dissabores, reinam aqueles que mais armas tiverem. Uma das armas é a plantação de notícias em tempos estratégicos. Aqui, mata-se porque sim, seja politicamente, seja profissionalmente e há até martelos à espera de uma boa cabeça. Desta vez, e depois de uma anunciada nomeação para a direção regional de um serviço público, eis a seta direcionada ao nomeado. De estranhar seria se não houvesse movimentações daqueles que têm algo a vingar ou que têm mero prazer em destruir o sucesso dos outros. A cidade é moral e geograficamente tão pequena que, aqui, tudo se sabe, inclusive de quem vem tal intento. Uma cidade não pode evoluir quando as mentalidades, sobretudo as daqueles que têm (ou deveriam ter) grandes responsabilidades no exercício das suas funções, são tolhidas pela inveja, pela ira e pela malvadez. Assim, nunca iremos sair do provincianismo bacoco que guia sentidos tão pequenos.



