Depois de tantas tempestades, o dia claro, a soberania de um povo livre que escolheu, sem margem para qualquer dúvida, a democracia, a verdade, a construção, o respeito, a dignidade e o futuro. Perto de três milhões e quinhentos mil eleitores ergueram os seus cravos vermelhos e mostraram que Portugal é um país fraterno, unido e responsável. Quando o assunto é a liberdade, ninguém pode faltar à chamada.
E foi assim que o país acordou, menos barulhento, menos crispado, seguro de si, seguro por todos.
A vitória de António José Seguro apresenta-se, em tempos frágeis, como um gesto coletivo de maturidade. Um país que, convocado pelo ruído fácil e pela fúria instantânea, respondeu com o voto consciente e um enorme sentido identitário.
Seguro ganhou porque os portugueses lhe reconheceram uma firmeza sem laivos de arrogância, uma ética sem teatralidade de missas ou ajudas encenadas para aproveitamento mediático, um compromisso político de serviço e de causa para com as pessoas, um elevado sentido de Estado e de empatia pelo outro.
A derrota de André Ventura é, antes de mais, a derrota de uma ideia perigosa: a de que o desespero pode ser convertido em programa salvífico e o medo em exclusão do inimigo inventado. O populismo vive da simplificação agressiva, da mentira repetida até parecer verdade e da divisão erigida como virtude. É uma absoluta falácia.
Ontem, Portugal disse, firmemente, “não” aos monstros do passado. O “não” que o Governo, lamentavelmente, não teve coragem de proferir. Disse não ao ódio, à desinformação como arma de arremesso, ao grito como substituto do argumento. Disse não porque sabe que a democracia é exigente, lenta e imperfeita, mas infinitamente mais justa do que qualquer salvador de ocasião.
Ainda assim, seria um erro moral e político olhar para os eleitores de Ventura com desprezo. A grande maioria destes eleitores não quer o fascismo de volta, quer apenas protestar pelo cansaço, pelas vidas apertadas por salários curtos, pela fragilidade dos serviços públicos, pelo direito, que parece negado, à habitação digna. Muitas destas pessoas sentem-se invisíveis, empurradas para a solidão. É preciso ouvi-las, acolhê-las e devolver-lhes a esperança. A dor social deve transformar-se em políticas públicas sérias, eficazes e justas e este é o dever dos bons políticos, o de ouvir, entender e agir.
O desencanto não pode ser combustível para fogueiras identitárias, tem de ser matéria-prima para soluções concretas. Cada problema abandonado é uma porta aberta ao ruído e cada resposta construída é um antídoto contra o extremismo.
O que agora celebramos não é a vitória de um homem, é a reafirmação de um pacto. O pacto entre gerações que recusam herdar um país zangado; o pacto entre diferenças que escolhem coexistir em vez de se anular; o pacto de um povo que sabe, por experiência própria, o preço da liberdade.
Contudo, devemos estar especialmente vigilantes e conscientes da importância do papel de cada um na defesa da democracia. Os aproveitadores do desalento estão esfomeados e prontos a atacar a fragilidade humana. Que nos saibamos defender uns aos outros. Sobretudo, defendamos os mais fracos para que não sejam usados como carne para canhão. Nunca nos esqueçamos, «contra os canhões, marchar, marchar!».


