Opinião de Daniel Lucas: Partidos políticos: entre a Quaresma e a Ressurreição

Escrito por Daniel Lucas

No sábado, tive oportunidade de ver, no TMG, o bailado “Os Maias”, com uma carga emocional e visual forte. O livro de Eça de Queirós é um dos meus favoritos. Sem querer, vejo-me a pensar sobre o PS e o PSD locais. Mais parecem hoje personagens de uma narrativa que Eça de Queirós teria escrito com particular gosto, não pela intensidade do conflito, mas pela elegância da inação. Há qualquer coisa de profundamente familiar neste modo de existir, muito diagnóstico, alguma eloquência… e uma curiosa dificuldade em dar o passo seguinte.
Há momentos na vida política de um território em que o mais ensurdecedor não é o que se diz, é o que se recusa escutar!
Após seis meses das eleições autárquicas, em que o povo foi quem mais ordenou, não deixou recados ambíguos em redes sociais e afins. Falou com a clareza crua de quem vota e, quando o faz, não pede licença a aparelhos nem consulta cartilhas partidárias. Curiosamente, há quem ainda esteja à espera de tradução. Como se a vontade popular precisasse de legenda.
Mas o tempo político, tal como o tempo humano, não é infinito, organiza-se em ciclos.
Hoje, o que se vive nos partidos tradicionais tem muito de Quaresma: um tempo de travessia, de introspeção, de perda de centralidade, de reconhecimento, ainda que silencioso, de que algo se esgotou. Um tempo necessário, até. Mas nunca um fim em si mesmo. Porque a Quaresma só faz sentido se apontar para a Ressurreição. É precisamente aqui que a ausência se torna reveladora.
Num momento em que tanto se fala de renovação, abertura e futuro, seria natural, quase inevitável, que alguém tivesse a simplicidade de fazer o gesto essencial, olhar para quem o povo decidiu ouvir. Os partidos com maior expressão têm de tomar posições relativamente aos independentes! Deveriam desafiar, negociar, delinear, trazer para si esse projeto, seja ele qual for, e manter, em uníssono, uma estratégia comum para o desenvolvimento local.
Com um percurso que passou pelo Partido Social Democrático, hoje afirma-se para além das fronteiras partidárias clássicas. Surge como uma figura que encarna aquilo que muitos partidos parecem ter desaprendido, um centro político real, onde o social convive com o desenvolvimento económico, onde o território é pensado de forma integrada, onde as respostas não se dividem entre ideologia e necessidade. Em bom rigor, aquilo que durante décadas se chamou, sem constrangimento, social-democracia.
No entanto, os partidos permanecem em silêncio, fechados sobre si próprios, consumidos por equilíbrios internos e nem todos estão disponíveis para abdicar das tentações do deserto.
A pergunta é simples, mas cada vez mais difícil de contornar. Se este é um tempo de repensar estratégias, alinhar políticas e redefinir caminhos… Porque não abrir um espaço sério de entendimento, com compromissos claros e assumidos à vista de todos? Porque não ouvir, verdadeiramente, e construir a partir daí? Há pontos de contacto onde antes se viam fronteiras. Falta assumi-los. Porquê esperar pelo tempo certo, esses quatro anos, esse lugar confortável onde tudo se decide longe do olhar público, quando a política se faz, antes de mais, no presente, e quiçá para 8 anos?
Talvez porque isso obrigaria a uma rara forma de maturidade e coragem política, a de reconhecer que o centro não se decreta, conquista-se. No meio de tudo isto, a pergunta continua a pairar, não como crítica, mas como evidência, se o objetivo é mesmo servir as pessoas, o que impede, afinal, de caminhar ao lado de quem já lá está?
Porque, às vezes, o verdadeiro bloqueio não está nas diferenças políticas. Está na dificuldade em aceitá-las quando deixam de nos pertencer.
Feliz Páscoa a todos, com a esperança de que, também na política, haja espaço para a Ressurreição.

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Daniel Lucas

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